Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 17/06/2009

Igreja da Sé: A transformação da antiga construção de taipa em Catedral

A primeira reunião, para discutir o assunto de uma igreja na Sé, aconteceu em 02 de outubro de 1611, entre os camaristas. Naquela época já havia o grande problema da falta de dinheiro. O que fora levantado não era suficiente para as obras da igreja e resolveram arrecadar mais. A população não aceitou esse ônus, afirmando que as contribuições recebidas eram suficientes. O padre João Pimentel viu-se obrigado a resolver as intrigas e as murmurações a respeito.

Em 02 de novembro de 1611, convocaram o procurador do conselho e este não compareceu. Foi feito um balancete dos gastos e das entradas e eleito o Padre Pimentel para uma averigação junto a José de Camargo e Alonso Peres para mostrar, ao povo desconfiado, que o dinheiro estava sendo bem aplicado.

Depois de tantos esforços a matriz foi inaugurada em 1612. Não era uma igreja grande o suficiente (apesar da pouca documentação sobre o templo) para atender a população que se dividia em quatro igrejas: Santo Inácio, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora do Monte Serrate.

Em 05 de abril de 1745, ocorreram as primeiras reformas da Catedral, que preocuparam o bispo frei Antonio da Madre de Deus Galvão. A nova igreja matriz de taipa de pilão, que substituiria a pequena capela, levou dez anos para ser edificada, sendo entregue em 1755, ainda incompleta.

Quando se pensou na edificação da torre, não havia na cidade arquiteto que quisesse assumir a responsabilidade. Recorreu-se ao mestiço Tebas, negro cativo que também foi construtor da torre do Recolhimento de Santa Tereza e do primeiro abastecimento público de água da cidade.

No ano de 1756, o prelado recebeu a primeira carta da Mesa de Consciência e Ordens a respeito de suas solicitação de esmolas para continuação das reformas da Sé. A conclusão das obras estava prevista para o ano de 1758, porém, em 1759, foi deflagrada a perseguição e o exílio da Companhia de Jesus e todos os seminaristas foram expulsos. O frontispício só ficaria concluído no ano de 1764.

A velha Sé era um templo de 34 metros da porta principal ao arco do cruzeiro, 12 metros de largura, em taipa de pilão, seis al­tares laterais mais o altar-mor, a capela-mor também na mesma taipa. No pé do arco da capela-mor feita de pedra de cantaria havia um coreto com uma cerca de grades de madeira pintada de dourado, utilizado para a Epístola, e um órgão de nove registros assentados em talha dourada. Segundo o “Inventário da Sé” datado de junho de  1747,  o órgão estava incompleto e muitos canudos pequenos  haviam sumido.

Observada pelo seu lado externo, a igreja apresentava uma torre simples, dividida nas seguintes partes: base, cimalha1, uma janela decorada com cornijas2, cimalha, relógio,  quatro sineiras. No topo, a torre era ornada com pináculos nas quinas e coruchéus. A entrada principal tinha uma porta em folhas duplas almofadadas. Foi a única igreja no estilo a ter uma portada de pedra lavrada com algum requinte e por isso sempre foi admirada numa cidade pobre. O portal branco encimado trazia o brasão da coroa real portuguesa. Acima da porta percorria uma cimalha e três janelas decoradas com cornijas. Mais uma cimalha e o frontão decorado com um medalhão central ladeados por pináculos3, volutas4 em cujo vértice havia uma cruz do estilo latino ou Cruz Romana – símbolo mais comum do cristianismo –, representando o sacrifício de Jesus ao ser cruxificado, conforme relatado no Novo Testamento.  Finalizando, uma escadaria onde, no começo do século passado, costumava sentar um mendigo que foi um dos tipos mais populares da cidade, o negro velho Zé Prequeté. Moradores cantavam: “Oh Zé Pequeté. Tira bicho do pé. Prá comê com café”5. Anexa à igreja, do seu lado direito, funcionava a Cúria Metropolitana em estilo assobradado com muitas portas e janelas.

Internamente a velha Sé tinha tábuas de assoalho, largas, grossas, cheias de frestas e feitas de canela preta, que foram disputadas para mobiliário quando o templo foi demolido.

Somente no início do século XIX, foram iniciados os projetos para as grandes reformas do velho Largo da Sé. O primeiro projeto, de 1882, ficou a cargo do engenheiro Jules Martin, o mesmo que projetara o primeiro viaduto do Chá. Ele idealizava a Catedral na praça dos Curros, atual praça da República. O senador José Luiz de Almeida Nogueira defendia que a antiga Sé não fosse demolida, antes que a nova fosse terminada.

Em 1888, durante uma reunião do episcopado de Dom Lino Deodato (1871 – 1894), realizou-se a primeira reunião para a construção da nova Catedral. As razões então ventiladas eram: o conjunto da antiga Sé, sólida na construção, mas alterada por várias reformas, o seu local e a urgência de abrirem-se novas avenidas em São Paulo. Da primeira comissão, cujo presidente foi Dom Lino, fizeram parte: Antonio Prado, Antônio Fleury (marquês de Itu), José Vicente de Azevedo e Jesuíno de Melo.

O projeto da Catedral foi apenas discutido nos curtos bispados de Joaquim Arcoverde (1894-1897), de Dom Antônio Cândido Alvarenga (1899-1903) e Dom José de Camargo Barros (1904-1906). Caberia então ao Dom Duarte Leopoldo e Silva (1908-1938) realizar o plano de erguer a nova Catedral de São Paulo.

Como não era viável a construção da Catedral no Largo dos Curros, o novo local continuaria sendo a Praça da Sé e exigiria a demolição do antigo templo.  O bispado de São Paulo recebeu a quantia de 350 mil cruzeiros pela demolição e terreno da antiga Sé.

Uma nova igreja deveria ser construída na região, ocupando também o terreno que já se encontrava vazio do antigo Teatro São José. Uma disputa acirrada envolveu a Prefeitura e a Cúria, já que na Sé também estava sendo projetado, pelo arquiteto Ramos de Azevedo, um novo Paço Municipal (que nunca foi realizado) para substituir o existente no Pateo do Colégio.

A igreja, muito influente na época, conseguiu a autorização para a construção da Catedral no alto da esplanada em troca da demolição das igrejas da Sé e São Pedro dos Clérigos. A cidade crescia vertiginosamente, afirmando-se como metrópole, enquanto a praça deveria quintuplicar sua área.

Em 11 de abril de 1910, publica-se a Lei n. 1305, da demolição da antiga Sé , iniciada em 25 de janeiro de 1912, ironicamente no dia do aniversário da cidade, quando o então arcebispo metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva e as principais famílias paulistanas começaram a angariar fundos para a construção do novo templo com linhas neogóticas, projetado pelo arquiteto Maximiliano Hehl. Dom Duarte Leopoldo e Silva empenhou quase toda a fortuna de sua família na construção da igreja, mas não viveu para ver a inauguração.

Com a demolição da velha igreja, o arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva preocupou-se em guardar as memórias da velha matriz e presentear várias igrejas com alguns objetos artísticos pertencentes à antiga Catedral, e outros foram confiados a particulares, conforme lista original existente no Arquivo da Cúria, assinada por Francisco Salles Collet Silva, então diretor do Arquivo.

A lista especifica os locais para onde foi o “tesouro da Sé”, e dela destacamos as matrizes do Brás; de Santa Ifigênia (inicialmente agraciada com o órgão da capela-mor, que, posteriormente, seguiu para a Igreja de São José, no Ipiranga, onde se encontra); dos Remédios; da Saúde (altar da sacristia, tapa-vento e grade do coro); a Matriz do Cambuci ganhou o altar de São João de Nepomuceno e do Bom Jesus, alem de duas portas de tapa-vento; a Matriz de Itapecerica ganhou quatro tribunas; o altar do Sagrado Coração de Jesus foi para a Matriz de Bom Jesus dos Perdões; o sino maior para a igreja de São Geraldo, nas Perdizes; e o menor para a de Santa Cecília; o relógio primitivo retornou à atual Catedral; a tela “A conversão de São Paulo” , de Almeida Júnior, que ficava no teto da nave, estão hoje no Museu do Ipiranga. Os frades capuchinhos da Igreja da Maria Imaculada ficaram com o retábulo-mor e dois púlpitos. A cripta permaneceu como estava. No interior do estado, a diocese de Ribeirão Preto ficou com as estalas que retornaram à Catedral neogótica assim que terminada em 1954.

Entre 24 e 28 de abril de 1913, a Mitra entrou em negociação com a Câmara Municipal e, pela escritura pública, ficou assentada a escolha da área para a construção entre as ruas Marechal Deodoro e Capitão Salomão, que integram atualmente a Praça da Sé.

A inauguração da igreja estava planejada para o centenário da independência em 1922, mas acabou acontecendo somente quarenta e um ano mais tarde, sendo inaugurada em 25 de janeiro de 1954, ainda inacabada, pelo arcebispo Dom Carmelo de Vasconcellos Motta.

O projeto da Catedral, depois modificado em vários de seus aspectos primitivos, foi feito pelo arquiteto Maximiliano Hehl, que submeteu seus planos a críticas dos mais renomados mestres da Europa. A Catedral está localizada exatamente onde passa a linha imaginária do Trópico de Capricórnio.

Toda cantaria necessária veio da Europa. Alguns acidentes ocorreram neste período, quando o vapor Bogor, que trazia pedras para a construção, submergiu na costa portuguesa.

No dia 24 de julho de 1914, com o lançamento do alicerce de uma das colunas internas, uma das bordas das valetas desmoronou, soterrando quatro operários.

Com os conflitos da Segunda Guerra Mundial, as cantarias deixaram de vir da Europa, e todo o material, inclusive os granitos, passou a ser adquirido de uma pedreira em Ribeirão Pires (SP).

De dimensões gigantescas com 6.700m2 de área construída, o templo mede 111 metros de comprimento por 46 de largura, 65 metros na cúpula e 100 metros de fachada, com cinco naves, comportando suas naves gigantescas cerca de oito mil pessoas. A fachada principal compõe-se de um frontão central decorado. As duas torres laterais atingem a altura de 97 metros, fazendo com que possam ser vistas de vários pontos da cidade.

Os números estatísticos, que contabilizam todo o material utilizado nas obras e decoração da matriz, são impressionantes: 154.200 kg de mármore branco de Carrara; 9.600 kg de mármore verde St. Denis das minas do Vale de Aosta; 74.550 kg de mármore amarelo de Siena das minas de Monte d’Elsa; 166.750 kg de mármore vermelho portassanta das minas de Caldana (Grosseto); 3.164 kg de ônix do Vale de Aosta; 4.050 kg de porfiro antigo do Egito; 135 kg de Malaquita do Congo; 25 kg de lazulita chileno; 15 mil kg de bronze. Foram cerca de 263.675 horas de trabalho. As escadarias da Sé foram feitas com pedras extraídas de extintas pedreiras localizadas no bairro de Itaquera.

As quatro estátuas do lado esquerdo do portal são as dos quatro profetas: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. No meio, está São João Batista e, do outro lado, os evangelistas: São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. Encontram-se, ainda, eternizadas na fachada nobre, as figuras de Santo Anastácio, São Cirilo, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho e São Gregório Magno.

Seu interior encanta pela elegância da verticalidade gótica, que inspira a espiritualidade. Os desenhos dos vitrais são de José Wasth Rodrigues, executados pela tradicional Casa Conrado Sorgenicht, empresa paulista especializada em vitrais. As portas, assim como os confessionários de jacarandá-da-baía, foram compostas nas oficinas do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Setenta artistas italianos, franceses e húngaros foram chamados para decorar o inteiror da Catedral. O trabalho resultou em mais de 112 estátuas, 30 vitrais e os mosaicos laterais.

Atrás do Altar-Mor, dedicado a Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Catedral, encontra-se o órgão, inaugurado em 25 de novembro de 1953 e considerado um dos maiores da América Latina, fabricado pela empresa italiana Balbiani & Bossi. São 5 teclados manuais, 329 comandos, 120 registros e 12 mil tubos que apresentam relevos entalhados à mão.

Os altares laterais de São Paulo e Santa Ana, respectivamente padroeiros da cidade e da arquidiocese de São Paulo, foram compostos em mosaico.

Terminada em 1919, a cripta da Catedral de São Paulo, com 617 metros, pode ser considerada uma verdadeira igreja subterrânea. A nave principal tem 20 metros de comprimentos e 10 metros de largura, ocupando o que corresponde à capela-mor da Catedral.

Em volta de toda a área das naves da cripta, encontram-se as câmaras mortuárias dos sacerdotes que ocuparam o bispado de São Paulo. Além da arte em mármore, a cripta abriga o mausoléu, em relevo de bronze, do índio Tibiriçá, e um mausoléu de padre Diogo Antônio Feijó. O conjunto de bronze, de autoria de Cucê, é de rico simbolismo. Ainda na cripta havia dois conjuntos de mármore: Jó, o afligido do Senhor, e São Jerônimo, ambos trabalhos de Francisco Leopoldo.

Estão sepultados na cripta os seguintes bispos:

Dom Bernardo Rodrigues (1745-1748); Dom frei Antônio da Madre de Deus Galvão (1750-1764), Dom Manuel da Ressurreição (1771-1789), Dom Mateus de Abreu Pereira (1795-1824); Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade (1827-1847), Dom Antônio Joaquim de Melo (1851-1861), Dom Sebastião Pinto do Rego (1861-1868), Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1872-1894), Dom Antônio Cândido de Alvarenga (1898-1903), Dom José de Camargo Barros (1904-1906), Dom Duarte Leopoldo e Silva (1907-1938), Dom José Gaspar de Afonseca e Silva (1939-1943) e Dom José Thurler (auxiliar em São Paulo).

Destacam-se também 61 sinos que estão na torre da esquerda, num carrilhão de 20 toneladas – planejado e fundido pela empresa holandesa Petit & Fritsen. Os sinos foram inaugurados em 1959, pararam de funcionar dez anos depois e voltaram a tocar em 1989, recondicionados e informatizados pela empresa de origem alemã Voith.

Às 8h em ponto, pode-se ouvir o Hino Nacional excutado de uma maneira bem inusitada, tocado pelos sinos da Catedral. De hora em hora, são executadas também músicas brasileiras como “Asa Branca“ de Luiz Gonzaga, e às 12h e 18h é a vez do carrilhão.

A riqueza artística e arquitetônica da Catedral esteve comprometida no final dos anos 1990. Serviços emergenciais começaram a ser feitos ainda em 1999 e as obras de restauração tiveram início a partir de maio de 2000, quando foi aprovado o projeto.

Seu precário estado de conservação punha em risco a segurança dos freqüentadores e a igreja teve de ser fechada ao público. Durante o restauro, optou-se pela conclusão do projeto original, que previa a construção de 14 torreões. Suas obras duraram três anos e consumiram R$ 19,5 milhões. A missa que marcou a “reinauguração” foi celebrada pelo cardeal-arcebispo Dom Cláudio Hummes (1998-2006), e contou com a presença de várias autoridades, entre elas a do governador Geraldo Alckmin (2001-2006) e da Marta Suplicy prefeita (2000-2004). Teve um concerto de sinos, sob comando do carrilhador holandês Gerard Waarad, considerado uma atração especial. Cerca de 10 mil pessoas estiveram no local, sendo 5.000 pessoas estavam dentro da Catedral, conforme estimativas da Arquidiocese e da Polícia Militar. 

Desde a reabertura em 2002, a Catedral da Sé voltou a ser um dos pontos mais visitados da cidade. Existe um projeto de conjugar a Catedral a um museu, como já ocorre em outros importantes templos ao redor do mundo, possibilitando ao visitante o acesso ao acervo histórico, arquitetônico e cultural da Catedral.


1 Moldura saliente que remata a parte superior da fachada, ocultando o telhado  e impedindo que as águas escorram pela parede. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

2 Moldura saliente que serve de arremate superior à fachada de um edifício. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

3 Ornatos em forma de pinos.

4 Ornatos em espiral. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

5 Freitas, Affonso A.Tradições e Reminiscências Paulistanas. São Paulo: Editora Martins Editora, 1954, pag. 35

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Responses

  1. Interessantíssima a monografia. Gostaria de fazer apenas uma pequena correção.
    O Trópico de Capricórnio, na realidade, situa-se mais ao norte, exatamente no Horto Florestal (Parque da Cantareira).
    Quem fizer uma visita poderá ver o marco do trópico.
    Abraços

  2. Oi Edison,
    Obrigado por seu comentário.

    Creio que o Trópico de Capricórnio passe em várias partes da cidade, inclusive no Horto Florestal. Tal informação colocada no texto foi em textos já publicados e reunidas nesta monografia.

    • Olá Hélio,

      Realmente a linha imaginária do Trópico deve passar por outros lugares da cidade de São Paulo.
      Eu estava me referindo a localização. O Trópico é uma linha paralela ao Equador situada a 23g 26min 16seg latitude sul e a catedral da Sé situa-se a 23g 33min aproximadamente. Portanto a uma boa distância do trópico. Aproximadamente 12,5 km. Dê uma conferida no Google Earth.

      A propósito, sua fotos são ótimas. Parabéns.

  3. É uma grande emoção saber que meu tio-avô (José Cucê) participou da construção das esculturas da Catedral da Sé. Edberto Henrique Cruz.


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