Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 29/10/2012

Santa Helena, um palacete que ruiu

O palacete, que levou o nome de Helena em homenagem a esposa do empresário que o edificou e “santa” aproveitando o lado da religiosidade da Praça da Sé, não conseguiu sobreviver e veio abaixo no início da década de 1970, para dar lugar a um novo e grandioso empreendimento formado pela Estação Sé do Metrô e sua nova praça.

É de se estranhar que, existindo  órgãos competentes para preservação do nosso patrimônio histórico e nossas memórias, o Palacete Santa Helena não tenha sido preservado. Sequer foi levado em consideração o que o prédio significou durante cinqüenta anos para a cidade, sua bela fachada, seus mármores, lustres, portas e tudo aquilo que de mais moderno havia na sua construção.

Naquela época, o edifício entrou num processo de decadência e suas salas de cinema só exibiam filmes fora do circuito comercial. Seus escritórios, na sua maioria desocupados, já não atraiam locatários, já que a cidade se desenvolvia para outros lados, especificamente no início da década de 1970, para os da Av. Paulista, nossa versão tupiniquim da 5th. Avenue, de Nova York.

Depois de algumas décadas, tendo sua história relegada ao esquecimento, em 2006, a Editora Senac de São Paulo, em parceria com a Imprensa Oficial, trouxe a história de um dos maiores e mais bonito prédio que existiu na cidade, lançando o livro Palacete Santa Helena. Um pioneiro da modernidade de São Paulo, organizado por Candido Malta Campos e José Geraldo Simões.

O trabalho de levantamento sobre o Palacete Santa Helena, apoiado pelo Fundo Mackpesquisas, contou ainda com um riquíssimo acervo fotográfico que documenta todo o processo construtivo do palacete, pertencente ao ex-governador Cláudio Lembo, cujo pai, Leonino Secondo Lembo, trabalhou na construtora Irmãos Assom, empreiteira responsável pela obra. O livro resultou ainda em pesquisas nos arquivos da Prefeitura, jornais e num conjunto de plantas do processo de avaliação do prédio pela própria Companhia do Metropolitano, que adquiriu o prédio e não o poupou da demolição.

O Palacete Santa Helena teve como proprietário o Sr. Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, ex-presidente do Estado de São Paulo, e o nome “Santa Helena” foi uma homenagem a sua esposa Helena, nascida Souza Queiróz. Como nos demais empreendimentos da área de construção no Centro, os agentes imobiliários pertenciam às elites econômicas e políticas da época. Para se ter uma idéia, naquela época era proprietário dos palacetes Prates e do Edifício Dom Luiz  o Conde Luís de Toledo Lara, do Palacete Chavante o senador Peixoto Gomingio, dos prédios Martínico e Guatapará a família Prado e o Edifício Martinelli era do empresário e comendador Giuseppe Martinelli.

A construção do Palacete foi encomendada à família Asson. No início, a obra foi dirigida por Emmanuele (Manuel) Asson (1869-1922), que faleceu no primeiro ano da obra. Coube então aos seus filhos Adolfo Asson (1891-1925) e Luís Asson (1897-1971) finalizar a construção. Adolfo também faleceu quando as obras do Palacete Santa Helena ainda estavam em andamento, sendo concluídas por Luís Asson.

O arquiteto que originalmente idealizou o projeto foi Giacomo Corberi, também responsável pelas primeiras alteraçõe. Ele redesenhou a fachada com aumento do 4º andar e inserção do cine-teatro. Posteriormente, o Santa Helena teve alterações realizadas pelo arquiteto Giuseppe (José) Sachetti, referentes essencialmente ao desenho da fachada e aos três pavimentos adicionais.

Na época de sua construção, o Palacete Santa Helena, em relação às edificações baixas ao seu entorno, era considerado um arranha-céu com seus sete pavimentos, que no projeto original eram somente cinco. Exprimiu em grande parte as características dos novos e já existentes empreendimentos imobiliários presentes no centro da cidade. Tratava-se de um prédio originalmente destinado ao comércio e serviços, constituído basicamente por lojas no térreo, duas sobrelojas e pavimentos superiores contendo 276 salas de escritórios. O primeiro projeto previa um hotel, depois substituído por escritórios, e um cine-teatro. As lojas situadas no subsolo (no seu número de quatro) tinham suas próprias instalações sanitárias, arejadas por meio de poços de ventilação. Os elevadores foram de fabricação Graham, divulgados na época como fruto da mais avançada tecnologia.

O cine-teatro, que levava o mesmo nome do Palacete, ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central, oferecendo aos seus espectadores platéia com frisas no térreo, uma área com camarote no mezanino e uma galeria no piso superior. No projeto original, estava previsto um salão de festas no subsolo (sob a plátéia) que acabou se transformando posteriormente em outra sala de cinema, o Cinemundi.

A estrutura do teatro, considerada uma sala de espetáculo de grande porte, tinha capacidade total próxima de 1816 assentos do Teatro Municipal, inaugurado em 1911. Tinha uma platéia com 27 metros de vão, com capacidade para 680 pessoas, frisas para 5 assentos eram, em projeto, 24; os camarotes para 5 assentos, eram 30. Segundo levantamento feito pela Companhia do Metropolitano por ocasião da avaliação do prédio na década de 70, foi revelado que sua construção final tinha 36 frisas e 42 camarotes e noticiário da época dá conta de que a lotação do teatro correspondia à ocupação de 1.500 lugares.

O que se observa é que o Teatro Santa Helena teve outro destino para  suas funções artísticas com o advento do cinematrógrafo, que chegou à cidade no início do século XX. O sucesso do cinema foi tanto que, em 1907, a cidade ganhou sua primeira sala de cinema para a exibição regular de filmes – o Bijou, na Rua Boa Vista. Após a primeira guerra mundial, surgia na cidade salas mais luxuosas, como o Cinema Central no Anhangabaú, o exótico Cine Santa Cecília e o Cine-teatro Santa Helena, consideradas boas opções.

A inclusão do cine-teatro representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e se tornava, além de uma operação imobiliária, uma nova aposta na movimentação cultural, coincidindo exatamente com a Semana de Arte Moderna de 1922.

Com toda essa gama de opções dentro de um único edifício, o Santa Helena caracterizou-se como o primeiro edifício multifuncional da cidade de São Paulo. Destacava-se pelo luxo da decoração e pela modernidade das instalações, que exigiram cursos técnicos siginificativos para a época: elevadores, sistema de iluminação e telefonia, áreas internas, o teatro com máquinas para renovação do ar com capacidade para 160 metros cúbicos por minuto, revelando-se pioneiro em diversos aspectos.

A decoração interna e a pintura do teto do teatro ficaram sob a responsabilidade do artista italiano Adolfo Fonzaris, que pintou um imenso painel interno na abóbada conhecido como “a História e a Fama do carro de Apolo”. A pintura era representada por cavalos fogosos. No alto, musas e outras figuras simbólicas, grupo de cupidos e a Glória, que empunhava uma coroa de louros.

A fachada do Palacete, como as de mais alguns edifícios ecléticos, com influência art-decô, passou a configurar a Praça da Sé com ares de cidade européia, antes mesmo da construção das torres da Catedral.

Completado por volta de 1925, pouco antes da morte do seu proprietário, o edifício teve seu cine-teatro inaugurado no ano seguinte. Apresentava produções hollywoodianas, além de espetáculos cênicos e musicais. Destacou-se também por sediar apresentações mais populares e nomes da música caipira. Esse tom popular e caipira destoava da elaborada decoração e do luxo propostos no projeto.

Mal secava o cimento das obras, uma decadência prematura transformara a região ao longo das primeiras décadas do século XX, limítrofe a futura Zona Leste, região operária e fabril da cidade. A região da Sé viu-se tomada por uma população que não correspondia às pretensões elitistas e reformadoras do Centro.

Contribuiu também por essa transformação, outro local ali bem perto, o antigo Largo do Tesouro, onde ficavam os pontos finais dos bondes que vinham do Brás, da Penha e de outros subúrbios de baixa renda, em constante expansão. Tomada nos anos 1920 pelos automomóveis dos privilegiados, a Praça da Sé foi aproveitada como terminal de ônibus. Na gestão do prefeito Prestes Maia (1938-1945), surge ao seu lado a gigantesca Praça Clóvis Bevilacqua, em local antes destinado ao Paço Municipal, transformada no principal terminal de transporte coletivo da cidade, atendendo toda a região Leste.

As pessoas abastadas acabaram migrando cada vez mais para o lado oeste do Centro: Patriarca, Líbero Badaró, Anhangabaú, Barão de Itapetininga, um Centro Novo de maior prestígio que passou a reunir o comércio de luxo e os serviços mais qualificados a partir do segundo pós-guerra. Ao Centro Velho restou a decadência e seus prédios de salinhas apertadas, sem garagens e por receber a pedestrianização das vias, que acabaram se desvalorizando rapidamente.

O Palacete Santa Helena viu surgir, no lugar de prestígio social visado de início, uma nova vocação – a de pólo de artistas e movimentos operários. Contendo uma grande quantidade de pequenas salas, que eram alugadas a preços módicos, o edifício começou a atrair profissionais de menor poder aquisitivo e organizações sindicais e de esquerda, que dependiam do esforço voluntário e das pequenas contribuições dos seus filiados.

Abrigou o Sindicato dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo de 1934 até 1954, também o Sindicato dos Empregados no Comércio e várias outras organizações de esquerda, muitas delas vinculadas ao Partido Comunista, como o Centro Juvenilista, ligado à Aliança Nacional Libertadora (ANL) e a Juventude Popular, Estudantil e Proletária da qual fizeram parte o escritor Jorge Amado e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Em 1935,  quando a ANL preparava o Congresso Juvenil Comunista, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), invadiu o edifício Santa Helena e prendeu várias pessoas, entre elas a jovem militante judia de origem romena, Genny Gleizer, de apenas 16 anos. Esta passagem ficou conhecida naquela época como “A Batalha da Sé”.

Com um grande número de operários e comunistas circulando por seus andares, as atuações no prédio não se limitaram à militância política e sindical. Alguns se dedicaram às artes, com destaque para um grupo de pintores (vários deles originalmente ligados à construção civil) que formou o Grupo Santa Helena: Aldo Bonadei (1906-1974), Alfredo Rullo Rizzotti (1909-1972), Alfredo Volpi (1896-1988), Clóvis Graciano (1907-1988), Fulvio Pennacchi (1905-1992), Humberto Rosa (1908-1948), Manoel Martins (1911-1979), Mário Zanini (1907-1971) e Rebolo Gonsales (1902-1980). O grupo começou a se formar a partir de 1934, quando os artistas foram chegando ao Palacete Santa Helena, n° 43 (posteriormente n° 247). Na visão de Rebolo, o grupo não começou como um movimento, mas foi transformado pelos intelectuais.

Toda essa vanguarda durou pouco. Após alguns anos, a maioria dos artistas deixou o prédio, assim como os sindicatos, que ganharam sedes maiores. Dividido entre os herdeiros de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins e Helena de Sousa Queiróz, o Santa Helena havia perdido suas atividades como empreendimento rentista. No auge da crise dos aluguéis e da Lei do Inquilinato de 1942, foi vendido ao IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) em 1944.

Suas salas de cinema passaram a exibir produções baratas atraindo pessoas de baixo poder aquisitivo. Os conjuntos de escritórios eram alugados para os ocupantes mais diversos.  Um deles ofereceu um curso de madureza – o Educabrás – que ocupou parte do edifício nos anos 60, até a sua demolição. Muitas salas não encontraram sequer inquilinos e o prédio foi se esvaziando.

Esse processo foi se agravando até o ano de 1971, quando foi comprado pela Companhia do Metropolitano e demolido, junto com os demais edifícios da mesma quadra, com o propósito de ampliar a Praça da Sé, anexando-lhe a Praça Clóvis Bevilacqua, e possibilitar a construção das linhas Norte-Sul e Leste-Oeste do Metrô.

O Palacete Santa Helena começa a ser demolido na tarde do dia 23 de outubro de 1971 e, depois de 117 dias de marretadas, some do cenário da cidade de São Paulo.

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 24/10/2012

Imagens Teatro São José e produções culturais

Reprodução: Gráfico do interior do teatro São José. História dos velhos teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. Coleção Paulistana, 1979

 

 

Eugênia Câmara. Reprodução: do site Vidalusofonas

 

 

Cartaz da Cia. Dramática Francesa e foto Sarah Bernhardt
História dos velhos teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. Coleção Paulistana, 1979

 

Luiza Tetrazzini. Reprodução: Site S. Francisco Museum

 

 

Amélia Vieira.
Reprodução: História dos velhos teatros de São Paulo.
Antonio Barreto do Amaral. Coleção Paulistana, 1979

 

 

Incêndio do Teatro São José.
Reprodução:História dos velhos teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. Coleção Paulistana, 1979

 

Rua da Freira, 1912. Local onde existiu o Teatro São José.
Foto: Aurélio Becherini.
Reprodução: São Paulo de Piratininga:de pouso de tropas à metrópole

 

 

Circo de Cavalinhos na Praça João Mendes, 1910, onde existiu o Teatro São José.
Foto: Aurélio Becherini. São José.
Reprodução: São Paulo de Piratininga:de pouso de tropas à metrópole

 

 

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 18/06/2012

Produção Cultural no Teatro São José

Talvez a parte mais interessante do Teatro São José seja a cultural. Apesar dos seus altos e baixos e longos anos para a conclusão da sua construção, este provavelmente foi o primeiro teatro no quesito importância para a cidade de São Paulo, com uma vida cultural nos seus trinta e quatro anos de existência.

Recebeu as mais importantes companhias teatrais brasileiras e internacionais, com a participação de pessoas renomadas como o maestro italiano Arturo Toscanini, que iniciava sua carreira, e a da atriz francesa Sarah Bernhardt. O ilustre maestro Carlos Gomes também pisou o palco do teatro.

O teatro teve importante participação histórica nas mudanças políticas do país, pasaram por ele personagens ilustres da nossa história, ligados à poesia e ao abolicionismo. Era o período da mudança do Brasil imperial para o republicano. Os bailes de carnaval eram os grandes acontecimentos no salão do teatro.

A primeira companhia a se apresentar no teatro, ainda na fase de construção, foi a de Alexandre Luande, denominada Circo Eqüestre e Ginástico Companhia Luande, em 11 de novembro de 1861. Segundo o jornal Correio Paulistano do dia 13, aquela foi uma apresentação de grande importância para a cidade com todos os bilhetes esgotados.  O circo permaneceu armado até princípios de abril de 1862, quando seguiu turnê.

Ainda inacabado, com acomodações ruins para os artistas e acústica deficiente, foi aberto para o público na noite de 04 de setembro de 1864. A platéia era de chão batido e muitas pessoas assistiram aos espetáculos sentadas em cadeiras levadas por seus escravos. Considerada noite de gala, a peça encenada foi A Túnica de Nessus de Sizenando Barreto Nabuco de Araújo. Compareceram ao teatro, naquela noite, o Presidente da Província e as pessoas mais importantes da cidade.

No ano seguinte, Antonio Bernardo Quartim, que já estava envolvido com a construção do teatro, organizou com Joaquim Augusto Ribeiro uma Companhia Dramática para poder proporcionar espetáculos. O Governo concederia uma subvenção de 4:000$rs, enquanto a Companhia tivesse no seu elenco o ator Joaquim Augusto Ribeiro de Souza. Em abril de 1866, levaram à cena os dramas As Mulheres de Mármore, Os Homens de Mármore e Suplício de Mulher. Nesse mesmo ano, Joaquim Ribeiro retira-se da Companhia Dramática.

Suspensa a subvenção oferecida a Bernardo Quartim, este escreveu para o Presidente da Província, pedindo para que não fossem suspensos os espetáculos, que era a única forma de entretenimento do público. Contrária à pretensão, a Secretaria do Governo respondeu que, não estando mais o ator Joaquim Augusto e como outros integrantes se retiraram do grupo, a Companhia estava dissolvida, pois restaram apenas poucos atores, o que não constituía uma companhia dramática.

Passada quase uma década do lançamento da pedra fundamental, a inauguração acontece com o teatro ainda inacabado. Oficialmente o Teatro São José teve uma programação mais atuante somente a partir do segundo semestre de 1866, quando J.B. Linsky ocupou o teatro, anunciando os espetáculos com as peças A sala dos segredos ou mistérios do diabo, A garrafa inesgotável e As sete caixas diabólicas, divididos em três partes.

Neste mesmo ano, seguiram as seguintes apresentações dos Acadêmicos:

- 39 Pontos! de Luís Nicolau Fagundes Varela.

- Noite Serena, serenata cantada pela menina Hortência, musicada por Venâncio José Gomes da Costa Jr.

- O pianista Artur Napoleão acompanhado pelo violinista Francisco Ruiz Barreto. A apresentação levou ao delírio a  maioria dos acadêmicos.

- Júlia Beltran, célebre vionilista alemã.

 1867

- Grande Companhia Keller, com as sinfonias de abertura O Triunpho de Galatèa, A Batalha das Amazonas sobre a Ponte de Troya, A Fome e  A Rainha das Flores.

O ano de 1868 – o quarto ano da Guerra do Paraguai – foi um dos mais brilhantes para a juventude do Largo de São Francisco. Transferido da Academia de Recife, chegava a São Paulo com 19 anos, mas já afamado, o estudante Antonio Castro Alves.  Castro Alves chegou acompanhado do grande amor da sua vida, a atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha. Ele matricula-se na Faculdade de Direito, e ela passa organizar uma empresa teatral, já composta de vários atores e atrizes. Castro Alves entusiasma-se pela vida teatral.

Em 24 de maio, a empresa de Eugênia Câmara apresenta o “espetáculo para rir”, dividido em três atos: As Mulheres Terríveis, Bertha de Castigo e Maricota.

Logo após a estréia em 21 de junho, de Meia Hora de Cinisco de Joaquim da França e Canção do Boêmio, escrita pelo poeta e musicada por Emílio do Lago. Em 03 de julho, a apresentação do pianista Henrique Oswald que tocou a quatro mãos com seu mestre Gabriel Giraudon. Eugênia Câmara interpreta a serenata Nuvem Branca, com versos do estudante Brasílio Machado de Oliveira.

Neste semestre, seguem as seguintes apresentações: Teresa com a participação de Eugênia Câmara que se restabelecia de uma enfermidade; 11ª  homenagem aos cursos jurídicos; Lúcia dos acadêmicos Carlos Ferreira e José Felizardo Júnior; A Donzela de Belleville com música de Carlos de Meneses; A Cantora da Rua; Simão ou o Velho Cabo de Esquadra; Gonzaga e a Revoulução de Minas, original de Castro Alves. Drama em quatro anos com a participação do ator Joaquim Augusto no papel de Gonzaga e Eugênia Câmara no de Marília de Dirceu. Por longos meses, o teatro ficou ocupado pela Empresa de Eugênia que se associou ao José Maria Leal Ferreira. Em dezembro, foi apresentada Mãe do Conselheiro José de Alencar.

Castro Alves, muito ciumento, viveu uma conturbada relação com Eugênia Câmara. Eles separam-se em setembro e, em novembro, ele acaba ferindo seu pé com um tiro numa “caçada” no bairro do Brás.

No primeiro dia de 1869, é encenada a comédia-drama em quatro atos O Demônio Familar, também de autoria de José de Alencar. Maio segue com uma paródia de Orphé aux Enfers de Offenbach, entitulada Orfeu do Mato e acompanhada de um coro de cinqüenta vozes. Em junho, quando era exibida a mesma paródia, grupos favoráveis e contra a artista trocam socos e pontapés, sendo necessária a intervenção da guarda da cidade. Em 11 de julho de 1869, a atriz portuguesa despede-se da cidade com o drama A Graça de Deus.

Castro Alves, já com seu pé amputado, reencontra-se, em novembro, com a atriz no Teatro Fénix Dramático  na cidade do Rio de Janeiro. Ainda muito apaixonado, entrega-lhe a poesia Adeus. Em fevereiro 1870, volta para a Bahia para tratar da tuberculose e, em setembro, segue para Salvador onde lança Espumas Flutuantes. Falece no solar da família, no dia 06 de julho de 1871.

Em julho, após a passagem da empresa de Eugênia Câmara, uns grupos de artistas organizam a Companhia Dramática Paulista e encenam O Caminho de Galés.  Um grupo de artistas líricos atrai um grande público ao teatro para ouvir a soprano Clotilde Petrini, a contralto Felícia Forliversi, o tenor Ernesto Bonaciche e o barítono Adolfo Bergamaschi.

O ano é finalizado com a apresentação do pianista e compositor norte-americano Louis Moreua Gottschalk e com as peças Glórias Italianas, Murmures Eoliens, Banjo e Ojos Criollos. Essas apresentações foram apreciadas pelo povo em geral, já que, numa das noites, a seleta platéia não apareceu. Sentido com a indiferença, o grupo cancelou os outros recitais e partiu.

1870

A pianista portuguesa Judith Ribas de Sá, acompanhada pelo violinista cego J. Heine e pelo professor Gabriel Giraudon.

1874

As apresentações da Sociedade Dramática Particular União Beneficente com a peça Um Homem de Honra, para comemorar o aniversário natalício do Rei Luís I. Tambémapresentações da  Companhia Lírica Italiana, que canto Atíla, Il Tròvatore, Ernani, ou Lucrezia Borgia e Norma.

 1875

Apresentação do carioca Eugênio Maurício Dengremont de apenas de 10 anos, acompanhado de outro jovem, Luís Levi.

1876

Companhia Italiana de Óperas, dirigida por Jorge Mirandola com o repetório Il Barbiere di Seviglia, Ernani, La Traviata, Lucia de Lammermoor, Lucrezia Borgia, Luisa Miller, Poliuto, Rigoleto e Il Travatore.  

A Companhia Emília Adelaide Pimentel, portuguesa de origem,  apresenta pela primeira vez na cidade A Morgadinha de Val-Flôr, seguidamente de  A Dama das Camélias.  

1876/1877

No fim do ano, estréia a Companhia Dramática do Teatro da Corte, empresa do ator Guilherme Silveira, ocupando o teatro até junho do ano seguinte, tendo no elenco a atriz niteroiense Ismênia dos Santos.

1878

Iniciada temporada com as peças A Cabana do Pai Tomás Jerusalém Libertada. Houve um furor para assistir essas peças teatrais e muitas pessoas ficaram sem ingressos e tiveram que voltar para suas casas.  

A Companhia Espanhola de Zarzuelas traz a soprano Josefa Garcia. No segundo semestre, segue a apresentação de coros com a representação de O Sargento Frederico. Na ocasião, estiveram na platéia pessoas importantes da Corte como o Conde D’Eu, o Visconde do Rio Branco e o ministro Tomás Coelho.

1879

A Companhia Dramática de Operetas Ribeiro Guimarães exibe a peça cômica Cenas da Vida do Rio de Janeiro.

No segundo semestre, chega à cidade a Companhia Dramática Italiana dirigida pelo Comendador Ernesto Rossi, sob a regência do Cav. Giacomo Brizzi. A Companhia apresenta Otelo, A Morte Civil e Romeu e Julieta.

Passado o furor da companhia italiana, a Companhia do Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, dirigira pelo ator Furtado Coelho, encena o drama Romance de um Moço Pobre. Leva à cena ainda: Dalia, Demi-Monde, Dominós Cor de Rosa, A Probidade, Os Fourchambault e Princesa Jorge.

No segundo semestre, chega para uma tempora lírica a Companhia Campantico. No dia 30 de outubro, os paulistanos ouvem pela primeira vez a ópera Aida, de Verdi.

1880

Como já havia acontecido em outros anos, o São José abre, em fevereiro, as portas de seu salão desta vez para o Clube dos Girondinos, para que promovessem bailes carnavalescos. Passada a quaresma, a Companhia Espanhola Zarzuelas, vinda de Campinas, faz apresentações acompanhada da orquestra campineira regida pelo maestro Santana Gomes.

No segundo semestre, apresentava-se a Companhia Lírica Francesa dirigida por Mr. F. Verneil. Seguidamente, apresentava-se a Companhia Lírica do empresário Ângelo Ferrari para 12 récitas1, sendo incluídas as óperas Il Guarany e Fosca, do maestro Carlos Gomes. O compositor esteve presente à premiere de Fosca

1881

Companhia Dramática do ator Guerreiro, levando à cena A Cabana do Pai Tomás e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Em fevereiro, o maestro João Gomes Cardim organiza um festival em que participaram todos os professores de orquestras de São Paulo, Santos, Rio Claro e Mogi Mirim. Os Girondinos ocupam novamente o salão do São José para seus bailes de carnaval. Em março, a Companhia Lírico-Dramática Espanhola, empresa de D. Hercoles Cavara, apresenta zarzuelas Capanono. Finaliza-se o primeiro semestre com a Companhia de Ópera Francesa, do empresário Maurice Grau, com as óperas Mme. Favart, Mignom, Carmen (de Bizet), Si j’etait roi, La fille du Tambour Major, Le Petit Duc e Les Clockes de Corneville.  

Iniciada temporada de 23 de agosto, com a Companhia Dramática Italiana de Adelaide Tessero, apresentando Divorziamo. A tempora lírica pela Empresa A. Ferri alcança grande sucesso com as presenças, no elenco, da soprano Erminia Borghi-Mano, do tenor Francesco Tamagno e do barítono Armand Castelmary. Pela primeira vez é apresentada L’Africana, Roberto el Diavolo, Dinorá, Guglielmo Tell e Mefistofèle. O tenor Tamagno encerra com nove óperas, inclusive Il Guarany, a temporada deste ano.

1882

Passado o carnaval, a Companhia da atriz Ismênia dos Santos volta ao Teatro São José com a apresentação As Duas Órfãs, e, seguidamente, Madalena, Grandier o Feiticeiro, Naná e A Taverna. Sem fechar o teatro no dia 6 de maio, apresenta-se pela primeira vez a Companhia Dramática sob a direção do ator portugues Simões.

Em julho, acontece pela primeira vez a união de duas Companhias, uma da atriz Gemma Cuniberti e a Companhia Dramática da Corte da atriz Ismênia dos Santos. Foi uma das grandes noites do Teatro São José. Em 02 de agosto, a Companhia da italiana Giacinta Pezzana Gualtieri apresenta Medéia, de Legouvé, Therèse Raquin, Princesa Jorge, A Dama das Camélias, A Estátuta de Carne e Maria Joana. De outubro a dezembro, ocupa o teatro com temporada lírica, a Companhia de Ópera-Cômica do Teatro Imperial da Corte, empresa do jornalista, teatrólogo e empresário Antônio de Souza Bastos.

1883

Foi um ano de fracassos, porém, o teatro abriu suas porta para os festejos abolicionistas.

A ópera Ernani estréia com grande concorrência, porém não teve continuidade. Na primeira audição, foi apresentada Linda di Chammounix de Donizetti  e os espetáculos seguintes foram adiados. Os artistas declaram greve, ante o fracasso das bilheterias. Foi feito até um anúncio no jornal A Província de S. Paulo de que a Companhia Lírica Italiana estaria devolvendo, às pessoas interessadas, o “importe de quatro récitas faltantes da assinatura”.

O Clube dos Girondinos, freqüente nas realizações dos bailes de carnavais, foi também parar na manchete de um matutino com a notícia de que a noite acabara antes da 1 hora, devido a uma forte pancadaria, tendo inclusive a participação da polícia.  Após o fracasso da temporada lírica, A Companhia do Teatro Recreio Dramático apresenta alguns espetáculos e, na noite de 14 de março, colaborou com a festa cívica promovida pela Associação Emancipadora Luís Gama, realizando uma sessão solene para a entrega de dez cartas de alforria.

O ilusionista Jules F. Bosco apresenta-se com regular platéia. Nos meses de abril e maio, o São José fechou suas portas, abrindo somente, em 07 de junho, para realização de quatro concertos clássicos com o violinista Vicenzo Cernicchiaro.

Após rápida passagem da Companhia do Recreio Dramático da Corte no dia 24 de agosto, teve lugar um sarau lítero-musical em homenagem à memória do abolicionista Luís Gama. Após o Hino dos Abolicionistas, vários oradores discurssam, entre eles: Henrique Lascasas do Centro Abolicionista;  Raul Pompéia pela Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro; Álvaro Chaves pela Loja América; Clímaco Barbosa pela Caixa Emancipadora Luís Gama; Xavier da Silveira pela Artística Emancipadora; Jesuino Cardoso pelo Clube Republicano Paulista e Alberto Torres pela Comissão Acadêmica, finalizando com o poeta Cruz e Souza declamando um poema.

A Companhia de Luís Braga Júnior apresenta alguns espetáculos do gênero fantástico como O Remorso Vivo, Um Drama no Fundo do Mar e Pesca ao Diabo. De setembro a outubro, a Companhia Lambertini apresenta alguns espetáculos, inclusive um com a finalidade de festejar o aniversário do rei Dom Luís de Portugal. O fracasso ocorrido no ano anterior desencorajara os empresários responsáveis pelas temporadas líricas. O teatro foi ocupado pela Patrizio’s Illusionist Company do Conde Patrizio Castiglioni. A Companhia  Ópera-Cômica Souza Bastos com Dona Juanita volta a lotar o teatro com quatorze apresentações até o início do próximo ano, fato fora do comum para a época.

1884

O maestro Gomes Cardim volta com a opereta O Papagaio, cuja ação se desenrola em São Paulo. Os bailes de carnaval, ponto alto do teatro, acontecem novamente com grande desordem desta vez pela ordenança do Presidente da Provincía. O empresário Vicenzo Tartini estréia com sua Companhia a ópera Nabuco de Verdi. Seguidamente, a Il Giuramento de Mercadante; Semiramide de Rossini; Nabucco e Beatrice di Tenda de Bellini.

Dois eventos – que fugiram à regra das peças, operetas e recitais – ocuparam as instalações do São José. Em 11 de agosto, realizaram-se as festas em que a classe acadêmica comemorava a data de criação dos Cursos Jurídicos no Brasil. Em 22 de setembro, presidido pelo Dr. Domenico di Lucca, foram convocados os italianos residentes em São Paulo, para a organização de um grande centro social.

A Companhia Furtado Coelho traz a famosa atriz portuguesa Lucinda Furtado que encena o drama Fédora, seguida das apresentações: Divorciemos-nos Demi-Monde, de Dumas Filho e O Mestre de Forjas, entre outras.

1885

A empresa de Luís Braga Júnior estréia com a peça cômico-lírica A Filha de Maria Angu. Ainda apresentam: O Sino do Eremitério, O Periquito, Os Sinos  de Corneville, D. Juanita, A Filha do Inferno,  A Perichole, O Estratagema do Artur e novamente O Sino do Eremitério, despedindo-se com O Mandarim.

Após o carnaval, o Grupo Lírico Italiano, com a colaboração do maestro Eduardo Pons e dos professores Antônio e Joaquim Leal, J. F. Kruger e Miguel Mugnaini, promove um espetáculo em benefício da atriz Dionara Zani.

Em junho, o Grupo Dramático Infantil, do Real Clube Ginástico Portugues, encena a Dois Irmãos das Almas, O Noviço, A Corda Sensível, Recrutamento da Aldeia e a opereta O Fantasma Branco.

Depois de se apresentar em 1876, volta à cidade a Companhia de Óperas Cômicas e Operetas da Empresa Heller. A Companhia contava com bons artistas, muitos deles já conhecidos dos paulistanos, inclusive a atriz portuguesa Hermínia Adelaide  que estreou com a peça O Barba Azul. A Companhia encenou outras tantas peças numa temporada de dois meses, entre elas: A Princesa dos Cajueiros, A Mil e Umas Noites, O Guarani, Cocota, A Gata Borralheira, despedindo-se com O Casamento Singula.

Em outubro, os paulistanos assistiram somente a trabalhos de grupos amadores. Em 15 de novembro, a Sociedade Filodramática Coral Pietro Cossa apresentou o drama de costumes da marinha italiana Um Episódio do Cerco de Ancona em 1860. Ao que parece, era comum na cidade a introdução de eventos para a colônia italiana, que já era bastante expressiva e superava a dos portugueses e espanhóis.

1886

A temporada lírica teve início somente em abril com a ópera La Traviatta, apresentada pela Companhia Lírica Paulistana. As novidades da temporada foram as modificações feitas no teatro como nova pintura, decoração da sala, novo sistema de iluminação e pano de boca.  Os espectadores viram pela primeira vez a encenação de Marion Delorme, La Gioconda e Hamlet, finalizando com a apresentação de Salvatore Rosa.

Um dos grandes acontecimentos deste ano foi a participação de um jovem com apenas 19 anos, primeiro “cellista”, a quem coube, ao estrear a Companhia no Rio de Janeiro após brilhante temporada em São Paulo, empunhar a batuta de regente, no impedimento do Maestro Leopoldo Miguez, responsável pela regência e direção musical dos espetáculos naquela cidade e de Carlo Superti, que não tinha domínio da partitura.

Iniciou-se dessa maneira no Brasil a carreira do maior maestro de todos os tempos: Arturo Toscanini.

O outro grande acontecimento ocorreu no final do primeiro semestre, quando a cidade recebe a diva francesa Sarah Bernhardt. Sarah estreou com Fedora, depois apresentou Frou Frou, Legouvé Addienne Lécouvreur, A Dama das Camélias e finalmente Fedra, tragédia de Racine. As peças causaram um grande furor na platéia extasiada que a fez vir à cena por muitas vezes para receber calorosos aplausos. Terminados os espetáculos, os rapazes da Faculdade de Direito, deslumbrados, forraram com suas capas o chão para que a atriz passasse. Desatrelando seus cavalos do carro, seguiram-na em cerimonial, entre aclamações, até o Grande Hotel.

Depois da passagem de Sarah Bernhardt pela cidade, várias outras companhias se apresentaram no teatro, como a Companhia de Operetas Braga Júnior e as empresas portuguesas Companhia Dramática Portuguesa do Teatro Príncipe Real e Companhia do Teatro D. Maria II, porém os paulistanos demonstraram desinteresse por praticamente todos os espetáculos.

Na noite de 08 de dezembro, as portas do teatro são abertas para realização de uma sessão cívica em homenagem à memória de José Bonifácio. Presidiu os trabalhos o Conselheiro Manoel Pinto de Souza e o Conselheiro Rui Barbosa homenageou com uma oração àquele que considerava ser uma pessoa que lutou pelas grandes causas da liberdade, democracia e do futuro do Brasil.

1887

Chega a São Paulo a Companhia de Giovanni Emanuel, rival de Erneto Rossi, na apresentação do drama Otelo. Foi recebida com ostentação pelos alunos da Faculdade de Direito, liderados por Olavo Bilac, ouvinte do curso jurídico. O povo ficou muito entusiasmado com a apresentação. De um dos camarotes, Antonio Carlos Machado de Andrada e Silva entrega-lhe, em nome da imprensa, uma coroa de louros e também uma cesta com muitas flores oferecida por D. Veridiana Prado, senhora da aristrocracia paulista.

Ao final do espetáculo, Giovanni Emanuel entrega a carta de alforria para duas jovens escravas que se achavam entre as luzes do palco.

A principal atração deste ano foi a Companhia Lírica Italiana da Empresa Social, sob a direção de Luigi Milone, apresentando: Un Ballo in Maschera, Ernani, La Traviata, La Favorita, Norma, Ruy Blas e Il Trovatore.

1888

O teatro abriu as portas em fevereiro com a Companhia de Operetas de Adolfo Faria, da qual participou, pela primeira vez, a atriz carioca Cinira Polônio. Em maio e junho, apresentou-se a Companhia Ópera-Cômica do Teatro Santado do Rio de Janeiro, apresentando as comédias: Dona Juanita, Boccaccio, A Toutinegra do Templo e Tricoche e Cacolet. Seguiram apresentações da Companhia Dramática Francesa, Companhia Dramática Portuguesa e do violinista, já consagrado no Brasil, Dangremont e do célebre  pianista G. Lewita. No final do ano, a Companhia da atriz Adelina de Castro encerra temporada.

1889

O marco da temporada, entre outras Companhias que passaram pela cidade, foi o concerto de violino de Giuletta Dionisio, garota prodígio ganhadora do primeiro prêmio do Real Conservatório de Nápoles.

Chegando novembro, apresentaram-se A Companhia Lírica Italiana com Aida, Otelo e Lo Schiavo. No final da ária Quando Nacesti tu, o maestro Carlos Gomes foi chamado ao palco, recebendo entusiástica ovação.

No dia 14, foi cantada a ópera Gli Ugomotti, última apresentação do período monárquico.

No dia 16 de novembro, em espetáculo de gala, apresentou-se a ópera Otelo para homenagear a Proclamação da República.

Três dias após a proclamação, o teatro foi palco de uma cena histórica. Nele, reuniram-se os monarquistas de São Paulo convocados pelo Conselheiro Antonio da Silva Prado e Dr. Augusto de Souza Queiróz, dos partidos Conservador e Liberal, com a finalidade de aderir à nova forma de governo.

No dia 18 de novembro, é lavrada uma ata com cento e setenta e duas assinaturas de pessoas eminentes da sociedade paulista participante do regime deposto, de cidadãos e de representantes de todas as classes sociais. O Dr. Antonio da Silva Prado passa a ler a ata com o seguinte teor:

“Os cidadãos aqui reunidos pelo impulso do patriotismo, que exige o concurso de todos os brasileiros, nas atuais circunstâncias, para a salvação da pátria, para manutenção da ordem e tranqüilidade pública, e para garantia dos direitos civis e políticos, aceitam para  forma de Governo Brasileiro a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Outrossim, protestam leal e decidido apoio ao Governo Provisório do Estado de São Paulo, para que ele possa cumprir o seu dever”. 1

Depois de delirantes aplausos, toma a palavra o Dr. Augusto de Souza Queiróz e declara:

“que como representante do partido liberal extinto, confirmava as palavras do chefe do partido conservador na monarquia, e que, com seus amigos aderia à moção, que não era mais do que o consorciamento dos antigos partidos, que nunca tinham tido as suas fronteiras perfeitamente definidas, e que, agora  unem-se para a glória da pátria e para a Constituição da República Federativa”.  2

O Dr. Antonio da Silva Prado finaliza seu discurso, anunciando que se lavraria uma ata da reunião para ser assinada pelas pessoas presentes que quisessem aderir à moção. Saudações foram manifestadas freneticamente pela multidão, que enchia a espaçosa sala de reunião. Suspensa a reunião, João Batista de Morais lavra e assina a ata.

1890

O palco do S. José recebe um grupo de amadores, intitulado Clube Mandelsshon. Encenaram a ópera Alessandro Stradella e Marta. No segundo semestre, ocupou o teatro a Real Companhia Eqüestre Italiana, especialista em funambulismo1, trapésio, estatuária e salto “plounguer”. O teatro, acostumado com recitais, óperas e outros gêneros internacionais, não recebeu bem a companhia e o público pouco compareceu. O crítico do jornal Correio Paulistano passou criticá-la sem piedade, dizendo que o espetáculo era em família, pois na platéia  em lugar dos habituais espectadores estavam somente parentes dos artistas.

Despedindo-se a Companhia Cantono, apresentou-se a Companhia Dramática Portuguesa de Teatro do Princípe Real de Lisboa, de que fazia parte a primeira atriz Amélia Vieira (dos Santos), nos meses subseqüentes, apresentaram-se grupos amadores. A Companhia Italiana fez temporada de dezembro a fevereiro de 1891. Era organizada pelo maestro e compositor paraense, José da Gama Malcher, apresentando as óperas: Bug-Jargal, Moema, La Favorita e Carmosina.

1891

Em fevereiro teve a estréia da Companhia de Óperas-Cômicas dirigida por Giovani Gargano. Apresentou pela primeira vez a ópera de Mascagni Cavalleria Rusticana. Vieram em seguida a Companhia Cômico-Dramática Espanhola, a Empresa Orestes Cartocci e a Companhia do Teatro Apolo do Rio de Janeiro.

O Teatro São José passa por nova reforma e é reaberto ao público, que o lotava para ouvir a opereta Mam’zelle Nitouche com a cantora Rose Villiot, que aportuguesou seu nome para Rosa.

De 17 a 21 de junho, encena-se pela primeira vez a revista de Artur de Azevedo, Viagem ao Parnaso,  com a primeira atriz e cantora dos teatros do Porto, Aurélia Santos e o ator Francisco Brandão.

Neste semestre, ainda ocupa o São José a Companhia Dramática Italiana, a Companhia Ópera-Cômica e Operetas Italianas, finalizando com a Companhia dirigida pelo Cav. Andréa Maggi.

1892

No dia 06 de janeiro, foi realizado um espetáculo de gala no teatro em homenagem ao Dr. José Alves de Cerqueira César, que administrou a cidade de 12/1889 a 08/1892. Natural de Guarulhos, ele nasceu em 1835. Formou-se pela Faculdade do Largo de São Francisco em 1860 e passou a atuar como promotor público na cidade de Itapetininga. Foi eleito vice-presidente de São Paulo, substituindo Américo Braziliense, após o titular abandonar o cargo, sob pressão dos políticos contrários a Deodoro da Fonseca. Após estabelecer a ordem, teve de enfrentar epidemias de febre amarela em vários pontos do Estado, o que o levou a promover o saneamento em Santos e na Capital. Foi eleito senador da República, mas antes de assumir o cargo, renunciou. Faleceu na cidade de São Paulo em 1911.

Dia 19 de janeiro, a Companhia Italiana de Óperas-Cômicas e Operetas ocupa o teatro, estreando com a opereta satírica A Emancipação das Mulheres e a peça histórica, em um ato, Anita Garibaldi. A mesma companhia, depois de diversas apresentações e de uma turnê pela cidade de Taubaté, regressou à cidade, sob a denominação de Companhia Italiana de São Paulo, e, com uma casa repleta, apresentou Uma Noite em Veneza.  Despediu-se em 11 de maio com a ópera-cômica Mignon.

A sensação do segundo semestre  da Companhia de Ópera-Cômicas do Teatro Santana do Rio de Janeiro foi as atrizes Amelia Lopiccolo, de origem romana, e Blanche Grau, de origem russa, com a peça Amor Molhado. A crítica das mais severas considerou as atuações da atriz Amélia e do ator Matos deploráveis, comentando que eles estavam desafinados e incertos.

Seguiram apresentações da Companhia Espanhola Zarzuelas e Companhia Russa dirigida por Jermann Filho, com a peça A Sala Verde.  Com a despedida da Companhia Russa, ocupa o teatro a Companhia Fênix Dramática da Capital Federal. Dentre alguns espetáculos, no repertório estavam as peças Como se fazia um deputado e A Paulicéia, uma exposição breve e sem pretensões da vida em São Paulo.

1893

Na noite de 05 de janeiro, o teatro foi cedido para a realização de um festival alemão. O teatro só foi reaberto em 27 de fevereiro, estreando a Companhia Italiana de Óperas-Cômicas, Operetas e Mágicas da Cidade de Roma, de Rafael Tomba, para temporada que foi até 13 de junho.  A peça de estréia Rafaelo e la Fornarina  caiu no gosto do público, com especial destaque para a prima-dona Luisa Tetrazzin (ver fugura 28).

Sete anos após sua estada na cidade, volta para exibir-se no São José, na noite de 07 de julho, a célebre atriz francesa Sarah Bernhardt. Com casa lotada, ela apresentou Tosca e o público chamou-a repetidas vezes à cena, aclamando-a com grande salva de palmas.

No dia seguinte, estreou a Companhia do Teatro Princípe Real de Lisboa com a peça inaugural De Má Raça,  tendo como primeira atriz Amélia Vieira.  

A Empresa Angelo Ferrari levou, ao São José, Eva Tetrazzini Campanini, irmã de Luisa Tetrazzini, casada com o maestro Cleofonte Campanini. Ela era considerada uma cantora perfeita, possuidora de voz delicada, cristalina e de notável extensão.

Seguiram apresentações da Companhia Ópera-Cômica do Teatro Santana, Companhia do Teatro de Variedades, empresa da atriz Ismêmia dos Santos, encerrando a temporada com a Companhia Lírica Italiana no dia 02 de dezembro.

1894

Em 21 de janeiro, o público teve  a oportunidade de assistir à soprano espanhola Luisa Pons, que exibiu La Traviata, Il Barbiere di Siviglia, Lucia de Lammermoor, Carmen, Rigoletto, Gli Ugonotti e Il Puritani.

Fechado até 17 de março, quando reabriu para receber a importante Companhia Dramática Furtado Coelho. Na  noite do dia 31, promoveu um espetáculo de gala com a presença do Presidente de São Paulo, Dr. Bernardino de Campos, que presidiu a cidade no seu primeiro mandato de 08/1892 a 04/1896. Nos dias 1° e 07 de abril, foi prestada uma homenagem à Guarda Nacional.

Participou dos espetáculos da Companhia de Drama e Opereta, empresa de Moreira Vasconcelos e F. da Silva, a atriz carioca Luisa Leonardo, afilhada do Imperador Dom Pedro II, que, ao assistir um concerto quando ela tinha apenas oitos anos, resolveu custear seus estudos na Europa. Na peça Itararé, Luisa fez o papel de Paulicéia e a Companhia de Moreira Vasconcelos fez grande sucesso com estas e outras apresentações.

Ainda passaram pelo teatro a Companhia Sepúlveda, que estivera no Teatro Minerva e se transferiu para o São José, e, para uma rápida temporada, a Companhia Lírica Verdino.

No segundo semestre, apresenta-se a Companhia de Ópera-Cômicas e Operetas da Cidade de Roma. Em fins de outubro, a polícia determina o fechamento do Teatro Politeama, obrigando a Companhia Dramática G. Modena a passar para o São José, iniciando seus espetáculos com A Dama das Camélias.

A Companhia  de Ópera-Cômica, Revista e Mágicas do Teatro Apolo do Rio de Janeiro, traz, pela primeira vez, para a cidade Naná Kan-Kan, após ter estreiado com a ópera-cõmica O Solar dos Barrigudos.

Na noite de 23 de novembro, entra em cena a opereta Rapaz de Saias, com a estréia da grande primeira atriz espanhola Pepa Ruiz.

Depois de três décadas, o Teatro São José começa a sofrer críticas, como a do jornal Comércio de S. Paulo:

“Têm estado fraquinhas as casas, no São José, pelo cansaço natural do público em ouvir peças vulgares e repetidas com a insistência teimosa de quem quer entreter tempo. E o público que se vá agüentando enquanto o governo não cumprir finalmente seu dever, chamando concorrentes para  a administração do teatro, sob garantias e cláusulas que aliviem o povo de peças exageradas e transformem aquele útil pardieiro em um elemento de educação popular pela audição de boa música e de autores que não explorem o gênero depravado da revista obscena”. 1

A Companhia, a partir de 23 de dezembro, faz uma turnê em Campinas e torna à cidade para as mesmas apresentações no dia 08 de janeiro de 1895.

1895

Costa Molker e Muller Freire ocuparam o teatro, a partir de fevereiro, com um programa de bonecos ventríloquos.

Em março, há um escândalo na Companhia Lírica Italiana. No quarto ato da peça Força do Destino, a atriz Bourmann recusa-se a voltar ao palco, sendo necessária a intervenção da polícia. Segundo o interrogatório, ela saiu de cena porque não foi suficientemente aplaudida. Ao ser interrogada, a atriz Bourmann  disse que estava indisposta e que era contratada para cantar no Teatro Apolo e não no São José, sentia-se contrafeita com o público, que parecia absolutamente descontente com a apresentação da peça.

Em maio, a Companhia Dramática Italiana apresenta Fedra, tendo no papel principal a atriz Vittorina Cechi Seraffini em substituição a Zaira Tiozzo. Seguidamente, apresentou-se a Companhia Dramática de Ernesto Novelli. Sua especialidade era a comédia de charge. Novelli recebeu muitos elogios pelas interpretações: “São Paulo fez alvo entusiasticamente, ruidosamente, por entre flores e aplausos em consagração brilhante”. 2

Já no segundo semestre, ao que parece pela primeira vez na cidade, o público paulistano teve a oportunidade de assistir aos trabalhos da Companhia Imperial Japonesa, de Chás Comelli, com espetáculos de ginásticas, acrobáticos, contorcionistas, malabaristas, funâmbulos e aéreos.

Leopoldo Fregoli chega à cidade com uma companhia de zarzuelas, da qual fazia parte a atriz Ismênia Mateus, já conhecida em São Paulo. Fregoli era conhecido pela habilidade de desempenhar diferentes papéis numa mesma encenação, com rápida troca de caracterização, representou na peça A Medalha mais de quinze personagens.

A Empresa Luigi Melone, que entrou em cartaz a partir de setembro, apresenta La Gioconda na noite do dia 20. Um espetáculo de gala em comemoração ao 25° aniversário da ocupação das tropas de Vitor Manuel II, após o abandono das tropas francesas dentro da guerra franco-prussiana. Em 20 de setembro de 1870, Roma é declarada capital da Itália.

O drama Maria Antonieta é encenado pela Companhia Dramática Gustavo Modena, de Sotti e Cerrutti. Pela primera vez em São Paulo, são apresentadas as peças Órfão do Gueto, I Ministeri di San Paulo, e Desforra, esta já conhecida do público.

No mês de outubro, a Empresa Milone fizera o anúncio da vinda da Companhia Lírica Raynéve. Entretanto, foi cancelado pelo não entendimento financeiro que a Empresa exigia.

Em dezembro, apresenta-se a Companhia Ópera Lírica Italiana cantando a ópera L’Africana com a soprana Elisa Bassi, uma cantora de boa voz. Com a peça Un Ballo in Maschera, apresentou-se a soprano brasileira Matilde Canizares.

1896

A temporada inicia-se, em fevereiro, com a Companhia Eqüestre dos Irmãos Fernando e Rodolfo Amata, apresentando números dos mais variados.

De abril a junho, apresentou-se a Companhia de Operatas, Mágicas e Revista do Teatro Variedades do Rio de Janeiro, de Ismênia dos Santos. Do seu repertório constaram operetas, comédias, músicas, paródias e zarzuelas.

Em junho, o grande ator G. Emanuel, predileto do público paulistano, volta ao São José com o drama Otelo, apresentado pela Companhia Dramática  Italiana Emanuel Rossi. Com Hamlet, o público proporcionou os mais calorosos aplausos a Emanuel. Retornando a boca de cena o artista discursa:

“De vós que sempre me tratastes bem, eu sempre direi bem. Tenho esperança de viver ainda algum tempo para voltar aqui, e eu vos asseguro, senhores, que a minha vinda a este país não representa mais do que o vivo afeto e a elevada estima que eu nutro, de há muito tempo, por este povo”.  1

Em meados do segundo semestre, as condições do teatro eram tão precárias que o intendente de obras públicas da Capital não mais consentiu outras apresentações, antes que o prédio passasse por uma manutenção.  A Companhia de Ópera-Cômica Portuguesa, dirigida por Afonso Taveira, ainda se apresentaria até meados de novembro.

O intendente concordou que a reforma começasse após as apresentações da Companhia já contratada. Assim, a Companhia Lírica Italiana, dirigida por  Giovani Sansone e Luigi Melone, iniciou sua temporada no final de novembro e fez sua estréia com a ópera Salvatore Rosa, há muitos anos não apresentadas na cidade.

1897

O sucesso da Companhia Lírica Italiana foi tão grande que a temporada foi até 19 de feveireiro, terminando com as apresentações Moema, do brasileiro Delgado de Carvalho, e Cavalleria Rusticana.  

O teatro foi então fechado para reforma, só reabrindo, em 13 de agosto, para receber a Companhia Lírica Milone, tendo na direção artística Giovani Sansone e Donato Rotoli. Para a estréia, foi escolhida a ópera La Bohème com a soprano Assunta Stinco-Palermini, o tenor Giorgio Quiroli, o barítono Arcangeli.  Em 19 récitas, foram cantadas, pela primeira vez, Nanon de Massenet e ainda as óperas Aida, La Bohème, Cavalleria Rusticana, La Gioconda, Rigolleto, entre outras.

A Companhia despediu-se na noite de 16 de setembro e, a 07 de outubro, estreou a Companhia Dramática Lucinda Simões, da qual fazia parte a atriz brasileira Lucília Simões, Cristiano de Souza e Grijó. Com a peça O Perfume, a Companhia despediu-se, mas após ter atuado no Teatro Politeama, regressa em 1º de novembro, apresentando Francillon. Segue turnê para Santos e finalmente rumam a Portugal.

1898

A última companhia a ocupar o Teatro São José foi a Companhia de Ópera-Cômica, Opereta  e Comédia, dirigida por Sampaio Moreira. Do repertório fizeram partes as peças Hotel Babel, Campignol à Força, A Cigarra e a Formiga, A Filha do Inferno, etc.

Na noite de 11 de fevereiro, despediu-se a companhia, sendo o prédio reaberto no dia 13, para um espetáculo do Grupo Dramático Gil Vicente, apresentando a peça de Manoel Pinheiro Chagas, Morgadinha de Val-Flor.

Talvez todas as reformas e a preocupação com as instalações do Teatro São José não deram bons resultados. Às 5 horas e 33 minutos, do dia 15 de fevereiro, o teatro pegou fogo e mesmo com a presença do Corpo de Bombeiros não foi possível salvar nada. Nos seus mais de trinta anos de existência, o teatro teve 453 apresentações, entre as quais 58 foram de óperas.

O teatro, que ficou por algum tempo somente com a fachada, foi demolido e o terreno foi ocupado por companhias circenses (ver figura 31 e 32), que conservaram, naquele local, um pouco da vida cultural da cidade. Em 1913, quando a Mitra Metropolitana entrou em negociações para a construção da nova Catedral, o terreno foi incorporado ao que já estava sendo planejado para a nova Praça da Sé.

A cidade de São Paulo ficou muitos anos sem teatro, até que foi inaugurado, em 1900, um novo Teatro São José projetado por Carlos Eckman, desta vez em nova localidade, na esquina do Viaduto do Chá com a Rua Xavier de Toledo. Para o dia de sua inauguração, foi anunciada a chegada de uma notável companhia de operetas  que estava em trânsito pela América do Sul e apresentaria a “Viúva Alegre”, com Ana Manery e Ema Gravini. Enquanto, porém, a tal companhia não chegava, presa a um contrato em Buenos Aires, o violinista Fraz von Vecsy dava uma série de concertos entusiasticamente aplaudidos. Com a inauguração do Teatro Municipal em 1911, que ganhou destaque, o São José foi desprezado e ficou obsoleto, sendo demolido depois de vinte e poucos anos de atividade, para dar lugar ao edifício Alexandre Mackenzie. No local funcionou a antiga sede da São Paulo, Tramway Light and Power, depois a Eletropaulo e, no ano de 1999, o edifício foi transformado no Shopping Center Light.

Alguns  ornamentos construtivos como: colunas, capitéis, mascarões e cariátides,  que perteceram ao Teatro São José, hoje decoram a Vila Itororó, construção dos anos 1920, feita pelo tecelão português Francisco de Castro. Ao que parece, os dois teatros São José não tiveram um final feliz e tão pouco o que restou do segundo está devidamente preservado, pois a Vila Itororó, mesmo sendo tombada pelo Patrimônio Histórico, encontra-se abandonada e deteriorada.


1 Declamação, acompanhada ou não por música. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa

1 História dos Velhos Teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. São Paulo: Coleção Paulística, 1979, pag. 128

2 pag. 128

1 Equilibrista que anda na corda bamba ou arame. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

1 Comércio de S. Paulo na edição de 13/12/1894. História dos Velhos Teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. São Paulo: Coleção Paulística, 1979, pag. 144

2 pags. 147 e 148

1Historia dos Velhos Teatros de São Paulo, Antonio Barreto do Amaral. São Paulo: Coleção Paulística, 1979, pag. 154

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 19/04/2012

Tebas o escravo arquiteto do século 18

Encontrando matérias interessantes, que complementam este trabalho. Publicado pela revista Leituras de História, da Editora Escala, matéria sobre o escravo Tebas que construiu e reformou as torres de algumas igrejas.

O trabalho dignificou o homem.Tebas o escravo arquiteto do século 18.O talento de construtor transformou o escravo Tebas em figura lendária; mas até hoje continua pouco conhecido

http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/50/artigo255932-1.asp

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 31/08/2011

Imagem Teatro São Jose

Reprodução: Wikipedia.

Foto: Militão Augusto de Azevedo. 1860

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 22/08/2011

Teatro São José

Quando se decide pesquisar alguma edificação que existiu nos tempos da São Paulo colonial, vem em mente de que se tratará de uma árdua pesquisa e que talvez não sejam encontradas muitas referências, nem levantamentos históricos, como foi o caso da Igreja de São Pedro dos Clérigos.    

Curiosamente, após uma visita ao Arquivo do Estado de São Paulo, conheci o livro História dos Velhos Teatros de São Paulo, de autoria de Antonio Barreto do Amaral e editado em 1979. O livro trata da história dos teatros que existiram e ainda existem em São Paulo até o advento do Teatro Municipal, inaugurado em 1911.    

Amaral fez um belo trabalho de pesquisa e na parte que trata do Teatro São José, relatando sua história desde o início de sua construção, passa, se não por todos, pelos principais espetáculos que aconteceram no teatro, entre outras curiosidades.           

Apesar de a finalidade deste trabalho estar focada na religiosidade da Sé, será abordada a perda de construções importantes para a cidade, dentre as quais está o Teatro São José localizado onde hoje ficam os fundos da Catedral e que foi destruído por um grande incêndio no final do século XIX. 

O Teatro, anos mais tarde, acabou sendo reconstruído ao lado do Teatro Municipal e sua demolição derradeira aconteceria no início da década de 1922. É através do belo trabalho de Antonio Barreto do Amaral, entre outras pesquisas, que o Teatro São José ressurge.    

Antes de existir o Teatro São José, a cidade de São Paulo teve outros seis teatros: Casa da Ópera, de localização incerta entre as Ruas São Bento e do Rosário (atual Praça Antonio Prado), inaugurada em 1763 e teve como proprietários João Dias Cerqueira, Luís Lopes Coutinho e Pedro Luís de Seixas; Casa da Ópera, em nova localidade no Páteo do Colégio, inaugurada em 1795, de propriedade do Governo da Província, foi demolida em 1870; Teatro do Palácio, quando as edificações do Páteo do Colégio sumiram do cenário de São Paulo e no local construíram o Palácio do Governo, inaugurado por volta de 1811 ou 1813, de propriedade do Governo da Província foi desativado em 1860; Teatrinho do Dr. Carlos Rath que foi um teatro particular atuante até 1860; Teatro Batuíra localizado na Rua da Cruz Preta (atual Quintino Bocaiúva, entre as Ruas Benjamim Constant e Senador Feijó) de propriedade de Antonio Gonçalves da Silva Batuíra, inaugurado por volta de 1860 e fechado por volta de 1870; Recreio Paulistano que foi atuante na década de 1860 e por fim o Teatro São José, inaugurado provisoriamente em 1864.    

A história do Teatro São José começa no aniversário da cidade de São Paulo no ano de 1858, quando o Barão de Tiete dirigiu ao Presidente da Província José Joaquim Fernandes Torres uma carta, encarregando-o de adquirir duas casas do Mosteiro de São Bento, por conta da Província, para a construção de novo teatro. Uma das casas pertencia a Lúcio Manoel Félix dos Santos Capelo e outra, ao Capitão Luís Antonio de Araújo, e ficavam na Rua do Imperador e pátio de São Gonçalo.  

Em 1° de fevereiro, o vereador Antônio Bernardo Quartim, filho do empresário Antonio M. Quartim, no ramo de cotonifício, compareceu ao Palácio do Governo para assinar o termo de rescisão do contrato feito em 1854 e celebrar um outro pelo qual se comprometia, em 11 cláusulas, a construir o teatro do lado esquerdo da Rua do Imperador, com frente para o Largo de São Gonçalo (atual Praça João Mendes). O teatro deveria ter oitenta camarotes, uma tribuna descente para a Presidência, uma platéia, guarda-roupas, camarins e deveria ser construído com as paredes externas de tijolos sobre alicerces de Pedra. Segundo o texto de Carlos A. C. Lemos “Cinqüenta anos de perplexidade”, publicado no livro São Paulo Metrópole em Trânsito1,  o Teatro São José foi a primeira obra de tijolos da capital.      

Os Srs. Tenente José Elias de Paiva e Joaquim José de Macedo se ofereceram como fiadores do vereador, o primeiro com a quantia de dez contos de réis e o último, com obrigações e quantias do contrato celebrado. Em 16 de março, o engenheiro civil Roberto Porfírio de Loma foi nomeado para inspetor das obras a serem iniciadas.    

O dia 07 de abril, às 4 horas da tarde,  foi a data escolhida para o lançamento da pedra fundamental no Paço da Câmara Municipal com a presença  do Presidente da Província, guarda de honra, funcionários públicos e demais cidadãos que quiseram honrar o ato. Foi também solicitado que os moradores do largo adornassem a frente de suas casas e aos que comparecessem de carro, que não estacionassem no largo.  

A cerimônia desenrolou-se com grande pompa e foi, talvez, a mais solene realizada na cidade até então. Foi lavrado o “Auto da fundação do teatro da Capital”, imprimindo-se oitenta exemplares para serem remetidos a arquivos da sociedade e distribuídos às autoridades. Na solenidade, foram proferidas orações  e dadas três descargas de infantaria e uma salva de artilharia. Na a ocasião, também escolheram o nome do teatro que passaria a se chamar “São José”, por ser este o nome do Presidente da Província na época.

Passados um mês do lançamento da pedra fundamental, a obra envolve-se em mudanças e em novas desapropriações. Decorrido um ano, o empreiteiro recebe um empréstimo, que deve ser pago sem juros e em prestações mensais. Ao abrir os trabalhos legislativos, em 02 de fevereiro de 1860, o presidente Fernando Torres sugere que, apesar do governo dispor de todos os meios para a construção do teatro, a obra fosse  adiada até que as finanças da Província estivessem em melhor estado, contudo, achando os trabalhaos já iniciados, ele não se oporia.     

Em agosto de 1861, encontra-se o Tesouro em precária situação, mas Bernardo Quartim recebe do Governo as quantias que lhe faltavam. Em 19 de março de 1862, o presidente da Província João Jacinto de Mendonça apresenta relatório à Assembléia, informando que o empreiteiro deveria entregar a obra dentro de um ano e informando também o que já estava pronto:

oito tesouras desde o lance contíguo ao salão da frente do edíficio até o arco do proscênio; concluído o pavimento das três ordens superiores, faltando apenas a primeira, forravam a estes e a seus corredores; estavam terminando diversas divisões internas; o pavimento do grande salão, as escadas de ferro e os caixilhos, e prosseguiam na construção das paredes laterais do arco  do proscênio”.  1

Como costuma ocorrer, atualemente, na execução de grandes obras pelo país, naquele tempo também ocorriam atrasos na entrega, desperdício do dinheiro público e até abandono das obras. Em fevereiro de 1863, o Dr. Vicente Pires da Mota, ao apresentar relatório à Assembléia Legislativa, limitou-se a dizer que o edifício estava em andamento, e que ficava a critério dos deputados deliberar ou perder o que já havia sido gasto.    

Depois de um ano, os trabalhos estavam paralisados e o empreiteiro Antonio Bernardo Quartim ameaçava arruinar a parte terminada devido à falta de pagamento por parte da Província. O Dr. Pires Mota, contrário a essa decisão, depois de consultar o inspetor do Tesouro Provincial ordenou a feitura da parede e o retelhamento por conta da Província, já que tanto já havia sido gasto e que a obra não fosse abandonada.    

No dia 04 de setembro de 1864, foi determinada a inauguração do teatro, embora muita coisa não tivesse sido ainda concluída. Nos anos de 1865 e 66, a situação permaneceu sem muitas alterações. Somente na gestão do Dr. Joaquim Saldanha Marinho, foi feito um minucioso trabalho “sobre o embrulhado negócio do teatro S. José”. Terminada sua gestão, Saldanha Marinho não conseguiu concretizar sua promessa, já que o negócio estaria virando um escândalo. Passou-se a administração de São Paulo ao vice-presidente, com a convicção de que a Província estaria completamente lesada em tal negócio.     

Não conseguindo entre as partes um acordo amigável para rescisão do contrato, foi autorizada a encampação do teatro pelo Governo. Em 13 de janeiro de 1867, a  revista O Cabrião publica a charge de Angelo Agostini, em que o presidente da Província, José Tavares Bastos, segura o Teatro São José, representado por uma vaca, abaixo deitado ao chão, vê-se Antonio Bernardo Quartim mamando no animal.    

Em março de 1874, na gestão do Dr. João Teodoro Xavier, é nomeada uma nova comissão formada pelos engenheiros João Pinto Gonçalves, Joaquim Ribeiro de Mendonça, Luíz Pereira Dias e João Pedro de Almeida para que examinassem o edifício. Estes concluíram que o prédio tinha solidez, mas que uma parede no fundo deveria ser considerada provisória e que a fachada deveria ser reconstruída. Antes de deixar o cargo, em 1875, Dr. João Teodoro celebrou com o Conselheiro Antônio da Silva Prado um contrato, pelo qual este se comprometia a concluir as obras, mediante uso e gozo do teatro pelo período de trinta anos.     

No contrato de vinte e cinco cláusulas constava: completar a construção do teatro, levantar o telhado, forrar corredores, pinturas, renovar assoalho da platéia, colocar janelas e portas, peças de decoração, mobília, encanamentos, tijolos com mármore na fachada, etc. Ficou também acertado que, se o contratante gastasse mais do que o programado, o Governo lhe daria uma importância em dinheiro e mais um ano de gozo gratuito do teatro. Firmou-se até o preço do aluguel do teatro que não poderia ser superior a 125$000 ou mais de 800$00 por mês. O contratante assumiu o compromisso de não visar lucro e de dotar a cidade com um teatro digno.     

Finalmente em 11 de março de 1876, o teatro estava concluído, apresentando sua fachada dezessete metros de extensão, profundidade de trinta e três metros, confinado, por um dos lados, com a Rua do Imperador e, pelos fundos, com terrenos de propriedade do Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Inaugurado com a apresentação da Companhia Lírica Italiana, dirigida por José Mirandola, que encenou a ópera Lucia de Lammermoor com a soprano Augusta Cortesi, o barítono G. Spalzzi e o tenor Luigi Lelmi.    

A 2 de outubro de 1887, o conselheiro Antônio Prado, na qualidade de usufrutuário do teatro, cede e transfere, ao artista Claudio Rossi, todos os direitos que lhe outorgava o contrato, de uso e gozo do prédio e de todos os pertences instalados no prédio, mobília, utensílios, etc. O artista, por sua vez, transfere os direitos, em 1891, para a Companhia de Teatros Brasileiros que acabou sendo transformada em Companhia de Teatro Paulista, porém, como não cumpre com os devidos pagamentos estipulados pelo contrato lavrado, em que a 5ª cláusula estipulava que a falta de pagamento resultaria na perda  da quantia entregue, retornando o objeto de cessão ao cedente.  O Dr. Martinho Prado acaba sub-rogado com todo o ativo e passivo da Companhia.      

Entre idas e vindas, passando a administração por algumas mãos, Dr. Martinho Prado assume a suas custas, uma nova reforma do teatro: renovação completa do assoalho, aumento da platéia, novos forros, camarins feitos de tijolos, construção de mais um andar na parte anterior do prédio, iluminação interna e externa a luz elétrica e obras de asseio. Em contrapartida, solicita que o prazo de usufruto fosse prorrogado pelo número de anos necessários para corresponder à quantia que aplicada nas obras projetadas, que era de 10:000$000 por cada ano. Esses entendimentos não foram concluídos sem a apresentação de um plano de orçamento detalhado das obras, pois o Dr. Jorge Tibiriçá, secretário da Agricultura e Obras Públicas, talvez já conhecesse a longa história da construção do Teatro São José.      

Em 1896, o teatro encontrava-se em precárias condições de uso quanto à segurança e garantia dos espetáculos, segundo relatório do Intendente de Obras. Desinteressado pelo negócio, em 10 de outubro de 1897, o Dr. Martinho Prado requer junto ao Governo autorização para ceder seus direitos contratuais ao Dr. José Nabor Pacheco Jordão. O pedido foi atendido em 18 de dezembro.      

Na madrugada de 15 de fevereiro de 1898,  a cidade é acordada pelo bimbalhar dos sinos das igrejas. A população, que dormia, não entendeu o que estava acontecendo e foi surpreendida com a notícia de que o Teatro São José pegara fogo e ardia, irremediavelmente, perdido. O material de fácil combustão fez com que as chamas se alastrassem, propagando-se para a sala do teatro, balaustrada dos camarotes, tetos, móveis.  Tudo ficou reduzido às cinzas.


1 São Paulo Metrópole em Trânsito. São Paulo:  Senac,  2004, pag. 34

1 História dos velhos teatros de São Paulo. Antonio Barreto do Amaral. Coleção Paulistana, 1979, pag. 81

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 20/01/2011

Leis desapropriatória da Igreja de São Pedro dos Clérigos

Levantamento de uma sessão ordinária e uma lei, autorizando as desapropriações da Igreja São Pedro dos Clérigos. As pesquisas foram feitas nos Arquivo Histórico do Município do Estado de São Paulo “Washington Luiz”, nos livros de Atas da Câmara Municipal.

12º Sessão ordinaria de 07 de abril

Presidência do sr. Almeida de Lima

Parecer n. 67 da Comissão de Finanças

São Paulo, 30 de março de 1911 – Mario do Amaral, Carlos Garcia, Paes de Barros.

Ninguém pedindo a palavra, são os pareceres postos em votação e approvada.

Entra em discussão o projeto apresentados pelas comissões de Justiça e Finanças, reunidas, seu parecer n. 69, autorizando a permuta com a Mitra da Archidiocese de S. Paulo, de parte do terreno da Egreja de São Pedro, necessária á rectificação do alinhamento do largo da Sé, com o terreno municipal contíguo aquella egreja, á Rua Floriano Peixoto.

Parecer n. 69 da Comissão de Justiça.

Por officio do 9 do corrente, a Prefeitura submete a aprovação da Câmara o acordo que celebrou com a Irmandade dos Clericos de S. Pedro, para a rectificação do alinhamento do Largo da Sé. A Irmandade permuta uma parte do terreno, em que esta assente a egreja, com o terreno municipal contíguo ao templo em questão e com face para a Rua Floriano Peixoto.

Esse terreno municipal é uma pequena nesga inaproveitável, com a área de 51m2,92, e se acha actualmente fechado por uma parede ocupada por annuncios.

O acordo apresenta a maior vantagem e, sem ônus sensível para a municipalidade, permitte a regularização immediata do alinhamento do Largo da Sé.

As comissões de Justiça e Finanças vêm, portanto, sujeitar o voto da Câmara o seguinte projecto de lei.

A Câmara Municipal de São Paulo decreta:

Art. 1º Fica a Prefeitura autorizada a permutar com a Mitra da Archidiocese a parte do terreno da egreja de S. Pedro, correspondente á área de 30m2,33, necessária a rectificação do terreno municipal, com a superfície de 51m2,92, contíguo ao referido templo, e situado a Rua Floriano Peixoto.

Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrario.

Sala das comissões, 31 de março de 1911 – Alcântara Machado, E. Goulart Penteado, Armando Prado, Mario do Amaral, Francisco de Barros, Carlos Garcia.

Ninguém pedindo a palavra, é o projecto posto em votação e approvado.

Annaes da Câmara Municipal – São Paulo – 1911 – pág. 166

Lei n. 1409 de 17 de abril de 1909

Auctoriza a permuta com a Irmandade dos Clérigos de São Pedro, do terreno encessario para a rectificação do alinhamento do Largo da Sé

Raymundo Duprat, Prefeito do Município de São Paulo.

Faço saber que a Câmara, em sessão do 7 do corrente, decretou e promulgou a lei seguinte:

Art. 1º – Fica a Prefeitura auctorizada a permutar com a Mitra Archi-Diocese a parte do terreno da egreja de São Pedro, correspondente á área de 30m2,33, necessária á rectificação do alinhamento do largo da Sé, pelo terreno municipal com a superfície de 51m2,92, contíguo ao referido templo e situado a Rua Floriano Peixto.

Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrario.

O Director Geral a faço publicar.

Secretaria Geral da Prefeitura do Município de S. Paulo, 17 de abril de 1911.

O Prefeito

Raymundo Duprat

O Director Geral

Álvaro Ramos

*Ipsis litteris

Livro Leis e Actos do Município, São Paulo (1908-1911) – pág. 45

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 25/10/2010

Imagens da Igreja de São Pedro dos Clérigos e relíquias

Igreja de São Pedro dos Clérigos, 1823. Pintura de Edmund Pink. Reprodução: Iconografia paulistana do Século XIX. Metalivros/ Bolsa de Mercadorias & Futuros, 1998

 

Largo da Sé, 1827. Debret. Reprodução: Catálogo da exposição: Iconografia Paulistana em coleções particulares

Largo da Sé com a Igreja Matriz e São Pedro dos Clérigos. 1880 Foto: Militão Augusto de Azevedo. Reprodução: Site São Paulo 450 anos.

Igreja São Pedro dos Clérigos. Reprodução: São Paulo de Piratininga:de pouso de tropas à metrópole

Igreja São Pedro dos Clérigos. Reprodução: São Paulo de Piratininga:de pouso de tropas à metrópole

Igreja da Sé em demolição. Ao fundo a torre da Igreja de São Pedro dos Clérigos. 1912.

 

Relíquias que pertenceram a Igreja de São Pedro dos Clérigos

 

SÃO PEDRO PAPA. Madeira policromada. Século XVIII. Igreja São Pedro dos Clérigos. São Paulo, SP .Alt. 1.885 mm


Igreja de São Pedro dos Clérigos, 1904. Reprodução: Site Ch Br Net

 

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 05/10/2010

Pedra fundamental e construção da igreja de São Pedro dos Clérigos

Tradução do que seria o registro da pedra fundamental da capela, escrito no português de 1747. Este livro encontra-se no Arquivo da Cúria Metropolitana, porém o material pesquisado para este trabalho é uma cópia datilografada do original.  LIVRO DO TOMBO DA CATEDRAL DE SÃO PAULO (1554 A 1895). Págs. 14, 15 e 16

Este livro que serve e há de servir de tombo desta freguesia e vai todo rubricado por mim e por fim leva o livro número de encerramento de São Paulo, 15 de março de 1747.

Manoel de José Vaz – Pároco da Sé

Título de concordância e instituição da Capela de São Pedro sita nesta cidade.

Próximo pela parte do Norte ao lado da Matriz, aliás Sé desta cidade, ergueu a Irmandade de São Pedro instituída antes na mesma Matriz a Capela, que dedicou ao seu patriarca São Pedro, estabelecendo-lhe o patrimônio, e impetrando a graça que tudo consta da escritura e provisão abaixo.

Excelentíssimo e Reverendo Sr. dizem o Padre Ângelo de Siqueria como provedor da Irmandade de São Pedro, e o Padre Francisco Alz Calheiros, que eles são movidos pelo zelo do serviço de Deus e como verdadeiros filhos de São Pedro, querem erguer uma igreja ao seu patriarca, para o que com toda a humildade o oferecem duzentos mil réis para o seu patrimônio:

Pedem à Vossa Excelência seja servido mandar passar provisão para a nova igreja, que se principiará logo depois de determinado o sítio, e lugar por que me for Vossa Excelência servido, no que receberão de mercê// Passe provisão na forma costumada de licença para a ereção desta capela, e depois de feita recorrerão com a escritura de dote em bens urbanos para se mandar visitar e benzer. Rio de Janeiro, quatro de agosto de 1740/Araújo//Dr. Araújo.//Dr. Francisco Antonio e Agoadalupe bispo deste bispado, e do Concílio de Sua Majestade, que Deus guarde o Senhor.

Aos que esta nova provisão virem saúde e paz no Senhor, que de todos é verdadeiro remédio e salvação. Fazemos saber, que atendendo-nos ao que por sua petição passada nos enviou a dizer o Padre Ângelo de Siqueira como provedor da Irmandade de São Pedro, e o padre Francisco Alz Calheiros, havemos por bem lhe conceder licença, como pela presente nossa provisão lhe concedemos para que eles suplicantes possam erguer uma capela com a invocação de São Pedro, em lugar decente assinado pelo Reverendo Pároco, não prejudicando aos direitos paroquiais, pôr de parte das casinhas, e fora dos usos Domésticos, e depois de feita, a escritura de dote na forma da Constituição, e decentemente paramentada com vestimentas das quatro cores principais, que mandam as rubricas do missal, e uso da igreja, e mais cores necessárias; e depois de feita recorrerão a nós com a / escritura de dote em bens urbanos para se mandar visitar, e benzer na forma do ritual romano e nela se poder celebrar. Dada nesta cidade e do Rio de Janeiro selo da nossa chancelaria e sinais do Reverendo Dr. Gaspar GLz de Araujo nosso provisor, e do Dr. José de Souza Ribeiro de Araujo nosso Juiz de Resíduos, e Governadores do nosso bispado aos sete dias do mês de novembro de 1740: Eu José da Fonseca Lopes escrivão da Camera o subscrevi. Gaspar Glz de Araujo; // Dr. José de Souza Ribeiro de Araujo. Lugar do selo. Fonseca Lopes.

Parece que a iniciativa de se construir uma igreja no século XVIII levava muito tempo, talvez pelas idas e vindas de documentos entre São Paulo e Rio de Janeiro, ou quem sabe entre Brasil e Portugal. A primeira cronoalogia da igreja de São Pedro fica sendo mais ou menos assim: em 1740, os padres solicitam uma provisão ao bispo do Rio de Janeiro. Em 1745, houve a doação de bem de raiz (bens imóveis, incluindo terrenos) e, somente em 1747, o título de recção (regência e concordância) e instituição de capela de São Pedro. A irmandade ainda ficaria funcionando na igreja matriz da Sé.  

Talvez num período de quinze anos (1747-1762) existiu uma capela. Depois surgiram novos trâmites para a construção de uma igreja, pois o que se consegue levantar de mais concreto acontece somente no bispado de Dom Frei Antônio da Madre de Deus Galvão (1750-1764), quando a faculdade para eregi-la – podendo aqui ser interpretada somente como uma permissão –, data do dia 31 de julho de 1762. Dom Antônio também deu continuidade às obras da Sé (que foram iniciadas em 1745), iniciou a construção do palácio diocesano e fez doações às obras pias, aos conventos existentes (São Francisco, São Bento, Carmo e Recolhimento de Santa Tereza) e à Igreja São Pedro dos Clérigos Seculares.  

Somente no dia  21 de outubro de 1763, foi criada a Irmandade, ficando o padre que dela associar saber dos 20 capítulos que ela contém para manter o devido compromisso. São 20 capítulos distribuídos com normas, obrigações, sufrágios, enterros e encargos.   

O mesmo livro, da Editora Documentários, traz um novo capítulo onde se comenta: “Achando-se, há mais de 50 anos, a actual igreja de S. Pedro ameaçando ruína, o dr. Juiz da Provedoria e Capelas ordenou a respectiva demolição”. Talvez a capela não tenha virado igreja na gestão do bispo Dom Frei Antônio da Madre de Deus Galvão e a demolição pode ter acontecido na primeira década do século XIX.  

Suponhamos que, de 1800 a 1822,  construiu-se uma nova igreja. O livro de Ney Braga Catolicismo em São Paulo, 450 anos de presença da Igreja Católica em São Paulo traz uma menção da Irmandade que elegia em assembléia uma nova diretoria:  

“a eleição que se faz neste ano de 1822, para o futuro de 1823:  servirem nesta Irmandade de São Pedro. Provedor: revmo. Antônio Pacheco da Silva; escrivão Joaquim José da Silva; tesoureiro: revmo. Manoel Joaquim Amaral Gurgel; procurador: revmo vigário José Manuel d Oliveira; juizes de mesa: José Maria de Moura Leite, Francisco Emydio de Todelo, Joaquim José Rodrigues, Diniz Illario, Ignacio Ribeiro do Prado, José Jacinto da Silveira, Luiz Manoel de Souza Freire, Francisco Gonçalves Cruz, Antonio Pinto Ribeiro, Frutuoso José Junqueira de Campos Vasconcelos, Francisco Moreira de Carvalho, João José Vieira Ramalho; sacristão-mor: Bartolholomeu Pereira Mendes. A ata foi relatada e assinada pelo escrivão, padre Manoel de Faria Doria.”  1

  A obra foi concluída por intermédio da comissão:  

“A corajosa piedade dos cônegos José Custódio de Siqueira Bueno, falecido a 24 de outubro de 1869; Joaquim José da Silva (cônego Siqueira) falecido a 20 de janeiro de 1877; Antonio Augusto de Araújo Muniz , falecido a 6 de outubro de 1900; monsenhor cônego Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade, falecido a 6 de fevereiro de 1879; monsenhor dr. Anacleto José Ribeiro Coutinho, lente jubilado da Faculdade de Direito (falecido) e padre Joaquim José Rodrigues (falecido), vigário do Braz, deve-se a empreza arrojada e pronta conclusão das obras da igreja de S. Pedro, que importaram em muitos contos de réis.” 1 

Como a igreja foi construída em taipa de pilão – material que necessita de cuidados –, passou por dois anos de reformas, já na segunda metade do século. XIX, como observamos a seguir: 

“em 1869, em consertos a Igreja de S. Pedro, foi a mesma fechada por algum tempo e reaberta, no dia 22 de janeiro de 1871, ao culto dos fiéis, realizando-se, nesse dia, uma pomposa festa, na qual foi celebrante o monsenhor cônego arcedíago dr. Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade, então vigário capitular do Bispado, tendo este sacerdote ocupado os esplendidos paramentos de lhama vermelha, custosamente bordados a fio de ouro, e que, segundo consta, foi também ocupado pelo papa Pio IX, havendo o cônego dr. Joaquim de Monte Carmelo, falecido a 11 de agosto de 1899 no mosteiro de S. Bento da Bahia, feito à igreja de S. Pedro doação dos referidos paramentos”.  2 

Sua reforma foi finalizada em 1871 e talvez tenha sido nesse período que foi feita a alteração do seu frontispício. A igreja de São Pedro dos Clérigos destacou-se durante o período colonial e o imperial por ser a única em taipa de pilão com duas torres. 

Para que fossem registradas características arquitetônicas da igreja de São Pedro dos Clérigos, foram utilizadas fotos de alguns dos pioneiros da fotografia que, em meados dos séculos XIX e XX, já se preocupavam com a documentação visual da cidade: Militão Augusto de Azevedo, Marc Ferrez e Aurélio Becherini. Para se entender um pouco dos detalhes externos decorativos,  também foram utilizadas descrições textuais e fotos de igrejas portuguesas, entre outras existentes em várias cidades de Minas Gerais, que também foram feitas de taipa de pilão. Que o pecado da análise e descrição não seja muito grande! 

A igreja apresentava duas torres simétricas com quatro sineiras, ornadas com pináculos nas quinas. Após uma reforma no século XIX, é ornada com coruchéus3 em seu topo.  No térreo, portadas em folhas duplas almofadadas protegidas por cornijas4, sendo a porta central  maior na altura e largura. Janelas encimadas decoradas com cornijas que, internamente, poderiam estar ligadas ao coro. Acima das janelas, após a cimalha, entre as torres, frontão ladeado por pináculos, decorado com medalhão central, volutas, em cujo vértice está uma cruz do tipo “papal”  ou “tripla dos povos do ocidente”. Essa cruz é o emblema oficial papal. Das três barras, diz-se, frequentemente, que representam as três cruzes sobre o Calvário. No entanto, o mais provável é que representem a Igreja, o mundo e o céu. A cruz papal é usada como um índice de hierarquia por todos os papas conhecidos. Uma análise sobre a existência dessa cruz na fachada da Igreja de São Pedro dos Clérigos talvez venha indicar a sua importância em relação às outras igrejas existentes na cidade. 

Observando uma foto do Largo da Sé feita por Militão Augusto de Azevedo no ano de 1880, vemos à direita a residência do capitão Pinto Homem e a de seu cunhado, o coronel Ferreira do Amaral. Uma outra residência existia no lado esquerdo, era a da família Pinto Ferraz.  

As fotos de Aurélio Becherini feitas em 1905, 1910 e 1912, mostram  outras perspectivas. A parte esquerda desta casa (para quem olha de frente para a igreja) foi demolida para que fosse feito o novo arruamento. A da direita talvez tenha sido demolida ou reformada, pois a construção parece ter outra forma arquitetônica, com uma loja comercial no andar térreo.  

A cidade de taipa de pilão, que tinha 25 mil habitantes por volta de 1860, não apresentaria as mesmas características trinta anos mais tarde. Grande leva de imigrantes chegavam a São Paulo, eram na maioria italianos e já começavam a deixar suas marcas, inclusive na arquitetura. Sendo assim, parte do clero posicionou-se por algumas tendên­cias, que iam desde as italianas e góticas até românicas nórdicas. Um movimento em prol da volta às origens da arte luso-brasileira — o neocolonial — foi a maneira encontrada pa­ra reformar e preservar muitos templos religiosos na capi­tal e especialmente no interior do Estado. 

Conclui-se que as duas igrejas, São Pedro dos Clérigos e a matriz da Sé, continuaram imponentes por muitos anos, não sofrendo outras modificações. Isso não foi o bastante para que fossem preservadas dentro do que foi denominado o velho Largo da Sé, pois interesses mais ambiciosos, que objetivavam dar à cidade de São Paulo ares europeus e idealizavam para o local uma única igreja, trazendo para a cidade a arquitetura suntuosa das grandes catedrais.   

Em 1910, sucederam-se as leis desapropriatórias do Largo da Sé, cuja lista incluía além das duas igrejas, de São Pedro e a matriz da Sé, inúmeras casas e até ruas que sumiram. Segundo carta original escrita ao Bispo e arquivada no Arquivo da Cúria Metropolitana, a Prefeitura da cidade  solicitava naquela época que a Irmandade reformasse a igreja. Como a Irmandande não tinha provisões e havia um projeto para a construção da nova Catedral e novo largo da Sé, a Irmandade pediu autorização para vender a igreja avaliada na época entre 300 e 400 contos de réis. A Igreja de São Pedro teve seu fim anunciado pelo decreto de Lei n. 1409, de 17 de abril de 1911, no qual a Mitra permuta a igreja junto à Prefeitura, ficando acertado que na nova Catedral São Pedro teria um altar, o que não aconteceu. 

A primeira a sumir, segundo observação das fotos realizadas na época por Afonso A. de Freitas e publicadas no livro O álbum de Afonso, foi a Matriz. Sucessivamente, veio ao chão a Igreja de São Pedro entre outras construções.  

Acontecia a grande transformação de um Brasil rural para o urbano. Muitas igrejas foram demolidas para dar lugar a novas praças e ruas. Outras foram tiradas de seus lugares de origem e construídas em outros, como se a cidade precisasse ser ocupada e desenvolvida para outras freguesias, não tão distantes do Largo da Sé, que continuava a ser o ponto central da cidade. A economia cafeeira, que trouxe tanta riqueza par a cidade, já via com outros olhos o que era moderno. As igrejas e capelas foram sendo demolidas, sem contemplação, e reconstruídas de acordo com um novo conceito de “modernidade”, sem a preocupação de preservar a tradição histórica e cultural do paulista.  O largo da Sé, após as demolições, transforma-se num grande pátio. 

Dessa forma, parte das igrejas demolidas, particularmente seus retábulos, denominados de retábulos1 peregrinos, entre outras peças, inclusive algumas da Igreja de São Pedro, fo­ram salvos da ação predatória das diversas ordens e congregações religiosas, que não valorizavam a expres­são cultural do povo brasileiro. 

Percebendo o descaso com nossa história religiosa, o arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva (1908-1938), preocupou-se em preservar não somente as reliquías da Sé, mas também as da Igreja de São Pedro. Através da suas mãos foram salvas muitas obras de artes. Outras muitas cairam nas mãos de antiquários e colecionadores particulares. As peças mais representativas, principalmente as de prata e as imagens, foram recolhidas  ao Museu da Cúria criado em 1931, que, num primeiro momento, funcionou no bairro do Ipiranga onde hoje está o Arquivo da Cúria “Dom Duarte Leopoldo e Silva”. Na década de 1970, as peças foram transferidas para o Museu de Arte Sacra junto ao Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, com base num convênio firmado entre a Mitra Arquidiocesana e o governo do Estado de São Paulo, onde permamecem até hoje, inclusive para visitação. 

Segundo o livro Museu de Arte Sacra de São Paulo, sobre as peças da Igreja de São Pedro, expostas no Museu de Arte Sacra, é possível observar na imagem de São Pedro, que:

“O impressionante caráter do rosto torna-se o centro principal de atenção nesta iconografia de São Pedro, já não mais simples pescador da Galiléia mas chefe da Igreja Católica, Apostólica, Romana. É a autoridade do Pontífice que o escultor procurou infundir na eloqüente fisionomia do Príncipe dos Apóstolos.” 1

Após a demolição da Igreja de São Pedro dos Clérigos, a Irmandade passou a celebrar seus ofícios na Capela da Santa Cruz dos Enforcados, fundada em 1891 e situada na Praça da Liberdade, como forma de compensação pela demolição de sua igreja no Largo da Sé. O templo foi confirmado à Irmandade pela Arquidiocese de São Paulo no final dos anos 1990, segundo o livro Guia dos Documentos Históricos da Cidade de São Paulo, editado em 1998.

A Venerável Irmandade São Pedro dos Clérigos tem sua sede na Rua Santo Amaro, 71, 15° andar, no bairro da Bela Vista. É uma associação religiosa e civil, de caráter assistencial, beneficiente e cultural. Teve seu ato constitutivo alterado, desde sua fundação no século XVIII, pela provisão de 14 de maio de 1928, de Dom Duarte Leopoldo Silva, 1° Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e depois, em 17 de novembro de 1945, por ato de Dom Carlos de Vasconcelos Motta, 1° Cardeal Arcebispo de São Paulo. 

A Irmandade é regida por um estatuto que contém 76 artigos, com duração por tempo indeterminado, sem fins lucrativos e tem por finalidade o culto divino, a devoção ao seu Padroeiro e prestar assistência espiritual, material e cultural aos seus associados. Sua organização é constituída do Clero Secular da Arquidiocese de São Paulo e regida por um Estatuto, pelo Código de Direito Canônico, pela legislação brasileira e por disposição da Igreja Local.  

Além dos ofícios na Capela da Santa Cruz do Enforcados, a Irmandade mantém o Recolhimento de São Pedro destinado aos  irmãos idosos, localizado na Rua Bartira. Possui também dois jazigos no cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento, localizado na Av. Dr. Arnaldo.   

Algumas cidades brasileiras ainda possuem suas igrejas de São Pedro dos Clérigos como a da cidade do Recife denominada Concatedral, Mariana em Minas Gerais e Salvador na Bahia. A mesma sorte não teve a Igreja de São Pedro da cidade do Rio de Janeiro, que –  mesmo tombada, em 1937, pelo Patrimônio Histórico – também foi demolida durante o Estado Novo para a abertura da nova Avenida Presidente Vargas.  

A cidade de São Paulo, que, até então, sequer havia história para contar, entra no século  XXI com um pouco do seu passado resgatado. Um trabalho mais minucioso e detalhado poderá ainda levantar muitos dados sobre a Igreja de São Pedro dos Clérigos da Praça da Sé. Porém, como para toda pesquisa minuciosa, são necessários tempo e um pesquisador paciente para colher informações de bibliografias, livros manuscritos, atas, correspondências, entre outros documentos existentes nos arquivos da Cúria Metropolitana e na Irmandade de São Pedro dos Clérigos, contribuindo para que essa pequena história crescesse nos seus quesitos de detalhes das velhas igrejas do Largo da Sé.    

 1 A igreja de quatro séculos de São Paulo. São Paulo: Documentários, Vol.1, 1955, pags. 122 e 123

1 Estrutura ornamental em pedra ou tralha de madeira que se eleva na parte posterior de um altar. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

1 Museu de Arte Sacra de São Paulo. São Paulo:  Banco Safra, 1983, pag. 60

1 A igreja de quatro séculos de São Paulo. São Paulo: Documentários, Vol.1, 1955, pags. 122 e 123

2 A igreja de quatro séculos de São Paulo. São Paulo: Documentários, Vol.1, 1955, pags. 122 e 123

3 Arremate pontiagudo que encima as partes elevadas de uma edificação.

4 Moldura saliente que serve de arremate superior à fachada de um edifício.

Publicado por: Hélio Bertolucci, Jr. | 13/04/2010

Igreja São Pedro dos Clérigos

Existem na cidade de São Paulo 281 paróquias, congregando mais de seis milhões de católicos, e outras igrejas e templos ligados às mais diversas religiões – devido à grande imigração, no século XIX, de pessoas das mais longínquas partes do planeta.

Observam-se muitas construções modernas e imponentes como a Catedral Metropolita na Praça da Sé, outras mais singelas como a capela do Menino Jesus na Rua Tabatinguera e algumas seculares como as igrejas de Santo Antônio na Praça do Patriarca (século XVI), de São Gonçalo na Praça João Mendes (século XVII), Paróquia Bom Jesus do Brás (1818), Nossa Senhora da Consolação (1871), entre outras. Poucas restaram ou resistiram ao tempo numa cidade que teve  como desenvolvimento a especulação imobiliária entre tantos outros interesses pessoais e políticos.  

 No coração do Centro – exatamente onde as maiores festas e cultos religiosos aconteceram –, deixaram de fora da história da cidade um templo católico que, por muitos anos, habitou o Largo da Sé, recebeu o título de matriz e acabou sendo demolido para dar lugar ao que seria considerado o início do “grande” desenvolvimento da cidade: a igreja de São Pedro dos Clérigos ou São Pedro da Pedra – como era chamada carinhosamente pelos moradores da região, devido ao calçamento de pedra que ligava a Sé ao Largo de São de Gonçalo, atual Praça João Mendes. 

 O que se pretende com a reconstrução desta história é dar luz, através de pesquisas bibliográficas e recolhimento de tópicos, ao que foi a igreja de São Pedro dos Clérigos. Pois, nem mesmo a própria Irmandade, que ainda existe, possui documentos históricos sobre a antiga igreja do Largo da Sé.

Porém, passado quase um século da demolição da igreja, a reconstrução de dados não é uma tarefa fácil. Em determinado capítulo do livro Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó1,  há a informação de que, em 1681, existiam “quatro igrejas submetidas à Catedral da Sé (Santo Antônio, Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, São Gonçalo dos Pardos e São Pedro)” e talvez esta última seja a igreja de São Pedro dos Clérigos.

 Segundo consta numa edição de 1955 do livro A igreja de quatro séculos de São Paulo2,  o início da construção de uma capela deu-se por:

“iniciativa dos padres Ângelo de Siqueira e Francisco Calheiros, naturaes de São Paulo, edificada com provisão do bispo do Rio de Janeiro, D. Frei Antonio de Guadalupe, datada de 07 de novembro de 1740, e escrituração de doação de bens de raiz, datada de 08 de maio de 1745, feita pelo referido Padre Ângelo de Siqueira, havendo, antes, a irmandade de São Pedro dos Clérigos, funcionado na igreja-matriz de São Paulo, hoje Sé Cathedral.”

 

 


1 Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó1,  de Percival Tirapelli, São Paulo: Unesp, pag. 174

2 A igreja de quatro séculos de São Paulo, Volume I, São Paulo: Documentários Nacionais, pag. 122

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